domingo, 23 de março de 2014

Saber não esperar. Saber não esperar a vida. Saber não esperar a palavra. Saber não esperar o silêncio. Saber não esperar a Iluminação. Saber não esperar a chuva. Saber não esperar o acordar na próxima manhã. Saber não esperar o toque das mãos no cinema. Saber não esperar a gratidão. Saber não esperar a resposta. Saber não esperar a vinda do pai. Saber não esperar o abraço da criança. Saber não esperar a saudade. Saber não esperar as quatro horas da tarde. Saber não esperar o aparecer da Lua. Saber não esperar o beijo. Saber não esperar a respiração seguinte, a primavera seguinte, o amor seguinte, a dança seguinte, o riso seguinte, o colo seguinte da vó, a oração seguinte, a feira seguinte, o filme seguinte, o livro seguinte, a meditação seguinte, a foto seguinte, o aroma seguinte, a paisagem seguinte, o encontro seguinte, a poesia seguinte, o pensamento seguinte, a flor seguinte, o 'boa noite' seguinte - o canto seguinte da cigarra. Porque a cigarra pode não cantar um novo canto. E cada canto é um canto novo.
Mas, ainda assim, esperar. A beleza de perceber que "a não-espera também espera". Lugar de nascença das esperanças ternas. Saber não esperar e, ainda assim, esperar. Era isso, percebia eu, ao andar na calçada de casa numa sexta-feira, às três horas de uma tarde que começava seu auto-processo de pintura outonal. Ventava muito. E as árvores do hospital soltavam amorosamente as pequenas flores amarelas. Era lindo. Desacelerei o passo para o trabalho, embora minha íntima vontade fosse agachar, como menina, e lá ficar, parada - embaixo dela, até que muitas caíssem sobre os fios quietos do meu cabelo. As florzinhas amarelas dançavam com o vento. E não se importavam para onde ele as levasse. Brincavam. Não tiravam seus vestidos amarelos. Mas pingos de chuva foram marcando as vidas daqui com mais força. Pensava - e agora, como ficará a dança delas? As flores amarelas, sem espera alguma da alma - inteiras que são de Deus - não esperavam a chuva. E, por isso mesmo, com a chuva também dançaram. No chão foram, aos poucos, se aglomerando, tecelãs do fresco tapete por onde as pessoas cansadas voltavam. A chuva se amarelou. As florzinhas amarelas choviam. Sorri - sem esperar.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Se alegria tivesse cheiro... teria cheiro de:

cozinha da mãe.

flor.
incenso de sândalo.
estou sentindo agora.
água fresca da mangueira.
beira de rio.
giz de cera na mão de criança que desenha a flor, o sol, o girassol - amarelos...
cigarro de palha do meu avô.
mato.
café recém-passado misturado com fumo em uma tarde ensolarada.
boneca de pano antiga.
terra molhada.
travesseiro da vó.
corpo.
abraço.
quintal lavado.
templo.
chuva.
fogão a lenha da vó.
livro antigo.
pão.
liberdade.
comida da vó.
beira de mar.
manacá.
perfume.
chã mate com pipoca no fim de tarde.
algodão doce.
onde tem gente amada.
campo muito aberto e verde, úmido, levemente refrescante. 
brinquedo de madeira.
cravo.
café com leite de manhã.
manjericão.
dama-da-noite.
canela.
vento em um dia de sol.
minha mãe.
ar quando coloco a cabeça para fora da janela, observando o céu, durante alguma viagem.
meu pai.

Gratidão a todos que me ajudaram nessas pequenas e sensíveis descobertas.

terça-feira, 26 de novembro de 2013

O sorriso

Ela sempre me dizia, com uma certa mansidão na voz e um tempo de pausa entre as sílabas, que eu era o único a reconhecer os sentimentos verdadeiros em seu rosto. E todas as vezes eu achava engraçado e, em seguida, perguntava - por quê? - já sabendo a antiga resposta - porque ninguém nunca pousou os olhos tão profundamente em meu sorriso a ponto de se aproximar da essência dele. Achava belo ela usar essas palavras - normalmente quando estava dolorida em algum canto do espírito, normalmente quando se esquecia de recolher as esperanças nas manhãs, ao deixar a cama. Com sinceridade, digo a mim mesmo que comecei a aprender a ler sorrisos depois que a conheci. Ler e colecionar e depois soltá-los no rio. Ir além dos lábios, dos dentes, das conexões rápidas entre as expressões que formam e desformam um sorriso. Gostava de falar que ela tinha sorrisos de passarinho - e que, se quisesse realmente adentrá-los, eu devia ter um coração de passarinho, pois só um coração de passarinho sabe esperar. Ser paciente com o descobrimento dos outros através dos sorrisos tão vestidos. Os dela eram sempre expansivos, numa abertura que se propunha a tocar as cerejeiras na época de Hanami. Lembrávamos juntos, quando as solidões espinhavam, uma poesia do escritor português Eugênio de Andrade:

Creio que foi o sorriso,
o sorriso foi quem abriu a porta.
Era um sorriso com muita luz
lá dentro, apetecia
entrar nele, tirar a roupa, ficar
nu dentro daquele sorriso.
Correr, navegar, morrer naquele sorriso.

E, em um desses momentos, ela silenciosamente voltou seu corpo ao meu e me abraçou com a calmaria oferecida por Deus em nós. Foi, assim, que vi pela primeira vez a existência plena de um sorriso - sem forma, sem nome, sem cor, sem cheiro, sem eu nem ela. Éramos apenas um sorriso amando.


domingo, 17 de novembro de 2013

Às vezes, era isto apenas: deixar de pegar o trem para ficar mais tempo olhando a praça permeada pelo lenço quente da noite. As estrelas não vieram brincar de pontilhar em mão de criança. O vendedor de milho já estava em sua casa, deitado ao lado do filho pequeno na espera de que adormeça em paz. Os namorados guardaram mais beijos para o próximo sábado. O rapaz de barba e camiseta dos Beatles tocara apenas alguns acordes tristes e fora ninar o violão. Os pássaros cerraram as pequenas bolas de gude pretas que carregam na face e abafaram nas penas encolhidas o assobio que sobrou. Eram as flores as únicas que, talvez, escutassem os nós que se espremiam docemente em minha garganta - nasciam em fluxo as gomas densas e mornas de água, conforme o encontro dos meus cílios. Debruçada sobre o muro do metrô, cada gota foi marcando no concreto meu espanto em perceber que a praça estava mais em mim que fora. Que toda pessoa passageira de lá era passageira de cá. E eu não tinha controle algum sobre a passagem delas. Que, por mais que eu amasse os milhos, o vendedor precisava voltar para casa. Que, por mais que o som e o sorriso daquele rapaz me encantassem, ele não pertencia a praça alguma e tomava seu próprio rumo. Que, por mais que desejasse as estrelas, elas viviam sob as circunstâncias celestiais. No fim, na noite, a praça sereniza e só resta a presença das flores e das cigarras e dos cheiros suaves daquelas liberdades que me faziam exercitar a despedida e aumentar a grama da amorosa saudade.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Ele me dizia assim. Lembro-me bem. Que era durante a noite quando o encontro acontecia. Que encontro? Consigo mesma, menina-flor - sorria um sorriso sereno, numa longa observação dos meus sapatos vermelhos. Como é isso? Você se senta com perna-de-índio em frente à uma janela, às três da manhã, com um copo de leite ou chá de erva cidreira, assopra o líquido com paciência. Abre uma fresta para a brisa vir compartilhar-se, a cortina segura um pouco o ar que entra e o restante dele você recebe nos olhos e nas bochechas. Encolhe os ombros, em ternura para com o próprio corpo. Aceita com singelo cuidado o milagre - está respirando. Está viva. Repito, que é para não achar que é uma afirmação comum - está viva. Segura com mais firmeza a xícara e sente suas mãos tornarem-se quentes conforme a passagem dos milésimos de segundos. Termina o último gole, e percebe como ele já é você a partir de agora. Está só, plenamente só. Mãos vazias. Põe o rosto para fora e suga tanto o cheiro da Lua como o da flor da meia-noite plantada no jardim da casa vizinha. O silêncio é você, lendo para mim a poesia não que foi, não que será, mas a poesia que é, agora e aqui. Junta a mão direita com a mão esquerda, se inclina em reverência, e... ora com o canto do primeiro pássaro - "bom dia."

terça-feira, 29 de outubro de 2013

O que é saudade?
Não sei se eu saberia responder-te o que ela é.
Quem sabe de outra maneira - falo sobre momento, sobre a duração de um gesto. Falo sobre algo em nós que se conscientiza da existência de uma saudade serena que permeará o futuro desde o segundo próximo, por isso há nos olhos o cuidadoso afastamento de uma câmera que reduz lentamente o ritmo dos traços que desenham os rostos e o bailarino que habita os corpos.
Amanhecia o sábado. Amanheci eu. Fui até a cozinha, lá estava ele - estava alegre, pude sentir. Dei-lhe um beijo nas bochechas vermelhas cheias de curtos fios de barba e nos abraçamos. Ele já caprichava o almoço, eu tomava o café. Quando do rádio saíram Vinícius de Moraes e Toquinho - "Venha se perder, venha se perder nesse turbilhão! Não se esqueça de fazer tudo o que pedir esse seu coração..." Começamos a cantar, os dois, cada qual na vibração das suas cordas. Não nos olhávamos, mas nos sabíamos em completo sorriso interno. Lembramos da vida em Bauru, sei que lembramos. Lembramos do quintal molhado pela mangueira laranja. Lembramos do sol quente evaporando essa mesma água e deixando um cheiro no ar. Lembramos dos banhos meu e do meu irmão com a água gelada que dessa mangueira saía. Lembramos das pessoas que passavam na rua e paravam na frente de casa para pedir um gole, com a mão em forma de concha. Lembramos da música alta a dar corda às nossas faxinas, a casa toda aberta, portas e janelas escancaradas, pedindo bênção para a vida. Lembramos dos pelos do cachorro grudando no chão. Lembramos do macarrão com molho vermelho e frango na casa da vó, para onde sempre íamos depois. Lembramos. E tivemos puro amor pela memória. E nos olhamos. Eu disse - "Pai, dança comigo?" Ele segurou minha cintura, mão grande e doce. Segurou minha mão direita, mão grande e firme. Mãos de quem me acolheu mulher. Mãos que me sambaram. Sorria, dando bronca - "Deixa que eu levo." E eu... eu deixei. Levou-me para longe, para as roupas no varal, aquarelando qualquer dor que me havia. Cerrei os olhos. Nós fomos, em pequenos e suaves passos, para a calçada de paralelepípedos, para o sem-tempo.
Foi nos seus braços, pai, que entrei pela primeira vez na Dança.

Ex-corde.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Talvez fosse melhor sair de fininho, uma outra vez - uma segunda, uma terceira, uma quarta vez.
Sair de fininho sem que me notassem as pegadas em seus jardins. Apenas passar e ir. Ser apenas uma presença. Às vezes me falta a paciência de saber-me pequena passageira na vida dos outros. Vou lá, escuto suas músicas, levo uma nova. Mas nunca há tempo para uma composição. Alguns dias somente e a hora da partida me chega, sem que tivéssemos ficado uma madrugada inteira falando e rindo sobre absolutamente nada e tudo, enquanto raspamos o brigadeiro da panela. Sem que eu te beijasse os olhos e te dissesse, da maneira mais leve, meu sonho. Há uma teoria que diz que alguns de nós podemos ser chamados de pessoas substitutas. Levanto a mão e afirmo que estou dentro dessa categoria. Nunca fui permanente na vida de alguém. Somos?
Quer mesmo saber meu sonho? Agora me sinto pronta para respondê-lo. Eu tenho um. Ou fosse melhor dizer - um sonho me tem. Um sonho tremendamente azul: quero aprender a amar. É isso. É a plenitude disso. É o que me faz ficar bons minutos na feira, conversando com o florista sobre como cuidar das margaridas que levo neste domingo. É o que me faz sorrir para desconhecidos nos ônibus, nos trens, nas calçadas. É o que me move a ver poesia numa pedra e embaixo dela. Ensinam-me essas gentilezas e eu as costuro nas pontas dos dedos e nas pupilas. Coisas tão miúdas para um sonho tão grande.
Quero a liberdade de ver-me em todos os seres e de ver todos os seres em mim. Nós - interligados pelo Sagrado.