sexta-feira, 16 de julho de 2010

Boneca de porcelana

É estranho como existem pessoas sobre as quais ouvimos tantas histórias... das invadidas de alegria até algumas tristes, e nem sequer tivemos tempo pra ver o protagonista atuar (e depois abraçá-lo com o melhor de nossas mãos e braços).
As expressões que ela usava, doces saborosos que fazia, roupas floridas que gostava de por e os seus sábios ensinamentos... tudo, tudo é uma lembrança desconhecida, a qual os outros teimam em carinhosamente preencher em nossa memória.

Sou invadida todos os dias pela calmaria de uma linda senhora, corajosa, forte e tudo que de bom há... quando gostava muito uma pessoa, dizia em tom amoroso: "você é uma boneca de porcela".
Apenas recordo os traçados de seu rosto, mas tenho certeza... ela é a minha boneca de porcelana.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Vários nasceres

Hoje senti uma vontade enorme de escrever sobre um pensamento, uma filosofia bonita que uma menina muito sensível me disse há alguns meses. É mais ou menos assim: todo dia é uma vida. Nascemos ao acordarmos toda manhãzinha e morremos ao cair de sono toda noite, toda madrugada... somos invadidos por um universo de sonhos malucos e outros tão enlaçados com nossa realidade espiritual. Nossa vida inteira é formada, então, por várias vidas.

Quando ela me mostrou esse lado tão pequenino de se viver, de se deixar ser e de aprender a respirar nesse espaço de tempo, pude ver o quanto de coisas boas se pode criar... até morrermos. Sempre à espera do próximo nascer.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Moreno Amor

Fio de lã azul tu és em mim
Forrado do mais macio mistério
Fundido à delicadeza do cetim
Fora, sem dúvida, meu belo cemitério

Indo, vindo, morto, vivo
Incorporada à sua alma surge
Íntimo o abandono em que sobrevivo
Ilusório tempo. Eu corro. Ele não urge.

Mas costurastes minhas barras
Memórias plantastes em meu jardim
Menino bonito, violeiro de estradas
Moreno era passarinho, seu nascer não tinha fim

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Bordadeira de retalhos

Se pararmos pra imaginar, silenciosamente, veríamos uma roupa todinha trabalhada em retalhos sobre algumas partes de nosso corpo; outras partes, ainda estão nuas, sem tecido algum. Há retalhos cheios de fios coloridos, uns bordados com delicadeza pelas mãos e aqueles que chegam a brilhar conforme o sol os alcança. Nós podemos escolher o formato de nossa veste... os homens mais elegantes com ternos, os que gostam de aconchego estariam usando um bom pijama; as finas mulheres conseguem enxergar sobre si um lindo vestido comprido, digno de valsa, as mais desencanadas vêem-se com um bom e velho agasalho. E assim vai, todos com o direito de adotar um estilo... Porém nada mais que isso. A tonalidade da peça, os detalhes e a maciez são por conta de uma série de fatores, os quais formam a história de nossas vidas até aqui. E sabe qual o fator movido por encantos? As pessoas.

Cada pessoa que cuidamos é um retalho. Os retalhos, quando não são bordados aos demais, são simplesmente belos na sua unidade. Ao te conhecer, mesmo não tendo idéia do ser que realmente era, peguei um pedaço de pano branco em meu armário, sentei na cama e comecei, dia após dia, a bordar teus caprichos nele. Mal segurava aquela agulha, algumas vezes me espetava por atrapalhada ser, mas tinha colocado em minha cabeça que todas as vezes em que eu escolhesse um fio, ele seria de lã (a lã é macia, aquece e conforta...) e as cores viriam por si só.

Os sorrisos de todos que por minha vida passaram sempre me incitou o bordar do fio de cor esverdeado; seus olhares eram dignos da cor azul, ia de tons claros até os mais escuros (a profundidade lembrava-me isso); os toques das pessoas produzem em mim um bater tão mais firme de coração, não podiam deixar de terem fios do tipo vermelho-amora; ora, as suas gargalhadas eram, sem dúvida, de cor laranja fluorescente! E, por fim, uma das maiores simplicidades e, ao mesmo tempo, de grande importância: as palavras. Não tinha como não acolher as palavras que eles sopraram e eu tenho em mim um livro no peito com todas elas... seus fios de lã eram, são e serão uma mistura sem fim de cores.

A roupa que custamos a perceber encaixada em nós não é mais que um livrão, com páginas empoeiradas e branquinhas. Os personagens dessa narrativa são os conhecidos e os desconhecidos que andaram devagar ou ligeiramente por nossa trilha bagunçada. Só queria mostrar, por um retalho e seus fios, o tamanho de sua imperfeição... pois os fios nem sempre são desenhados no pano com o cuidado merecido; as tristezas das pessoas, as quais não conseguimos curar, leva-nos a usar cores escuras e frias; às vezes até espaço em branco sobra no retalho, porque a areia da ampulheta já desceu e não tivemos mais chance de virá-la para outro lado, afim de continuar a detalhar. Mas é plenamente a falta de perfeição que faz os traçados tão diferentes... as pessoas forram em nós sentimentos diferentes.

Numa noite, quando já estiver bem velhinha (assim espero!), e as frágeis mãos não estiverem mais aptas à graça do trabalho de bordadeira, rezo para que Deus me permita usar o meu vestido predileto para uma dança final, com todas as suas cores bem vivas... vindas do amor pelos meus amores, do amor pelos meus amigos, do amor por quem só troquei olhar.