terça-feira, 21 de setembro de 2010

"E eu queria poder te cantar sem canções..."

Coisa que aflora... belo como uma clave de sol, como os tons roxeados da violeta na janela de meu quarto assim que a luz entra às seis da manhã. Exploração de uma mina, pedido de perdão à razão, mão aberta... falo de amor. Possuo um dicionário bem no centro da língua, mas é tão pobre. Palavras colecionadas por toda a vida... e mesmo pretendendo viver até os 118 anos, creio que ainda não terei condições externas para te apresentar o que aquele instante - quando a mais franca direção dos olhos encaixa-se na alma de outrem - significou. "Uma mistura de azul anil!", "não! É um preto de jabuticaba!"... oras, é claro em minha mente que cada alma é uma alma, e cada par de olhos é singular em meio à multidão.
Sensações formigam minhas mãos, as gelam, travam no peito a vontade simples, eterna e inteira... de te abraçar. É assim como talvez eu chegue a compreender o amor. Meus olhos não querem apenas te olhar, querem respirar-te ao mesmo tempo em que enlaço meu tato ao teu. E me arrisco. E penso que estou amando, entortando mais uma vez as veias que circulam em meu corpo, aguçando de novo meus ouvidos para as músicas românticas que tocam no rádio às seis da tarde... e as ouço para olvidá-las depois, e te sinto para sentir-me sozinha quando o outono for embora. E te sorrio continuamente para que tu guardes, como fotografia tirada embaixo da garoa na rua, uma gota de minha essência.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Minha paixão por G.H.

Não sei como... não tenho na mente como foi que essa sintonia aconteceu, aliás, sintonias acontecem por si só. E este é o grande encanto de encontrar o outro. Cada pessoa e seu espírito têm sempre mensagens a transmitir ao nosso. E assim uma cadeia de delicados fluidos se forma dentro do que chamamos de vida. Durante uma semana eu estava descobrindo uma vida que não era minha, de uma mulher que eu não conhecia até então, nem imaginava como era o toque de sua pele... mas, enfim, ela esteve comigo, presente no meu abismo, no vale perplexo que se tornou "eu" durante meus 18 anos. G.H. foi quem me deu a mão nesses últimos dias, os quais me pareceram um tempo infinito, pois mergulhei em suas palavras, em cada dois pontos, pontos finais e travessões... pontuações que davam início a uma verdadeira magia. No início, apenas uma mulher que se viu fixada em um quarto de empregada, no qual aparece uma barata. Mas Clarice Lispector, com toda a intensidade que lhe cabe ao peito, descreve cada respirar dessa personagem... e nos envolve e recria a nossa visão, direcionando-a para o profundo mais fundo do simples e largo ato de "ser".

"Enfim, enfim quebrara-se realmente o meu invólucro, e sem limite eu era. Por não ser, eu era. Até o fim daquilo que eu não era, eu era. O que não sou eu, eu sou. Tudo estará em mim, se eu não for; pois "eu" é apenas um dos espasmos instantâneos do mundo. Minha vida não tem sentido apenas humano, é muito maior- é tão maior que, em relação ao humano, não tem sentido. Da organização geral que era maior que eu, eu só havia até então percebido os fragmentos. Mas agora, eu era muito menos humana- e só realizaria o meu destino especificamente humano se me entregasse, como estava me entregando, ao que já não era eu, ao que já é inumano."

A PAIXÃO SEGUNDO G.H.
Clarice Lispector

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Receita de viver

por Carlinhos Oliveira

Para viver bem é preciso chegar aos 30 anos com a satisfação de se ter permitido todas as loucuras imagináveis na juventude. E só freqüentar os amigos que suportam os nossos defeitos.
Recomenda-se também uma boa gargalhada, à sós, no momento de se erguer da cama: “Quanta bobagem tenho feito neste mundo! Quá, quá, quá!” A serenidade imperturbável conduz ao fanatismo, e este dá câncer.
Nenhuma preocupação burguesa ou pequeno-burguesa, como por exemplo o medo de perder o emprego ou os bens; nenhuma ambição material, fora as indispensáveis (casa, comida, roupa lavada), ou então que seja gratuita: juntar dinheiro para algum dia comprar um iate ou passar dois anos zanzando pela Europa.
Nunca ferir uma mulher a ponto de fazer-se odiado por ela. O homem inteligente é o que sabe transformar antigos amores em sólidas amizades.
Estar sempre em condições morais de perder tudo e começar tudo outra vez. Interessar-se por tudo, principalmente por aquilo que não nos diz respeito. Amar apenas uma mulher de cada vez. Dizer sempre a verdade, seja qual for e doa a quem doer. Conhecer um por um os nossos defeitos, curar-se dos que não são naturais e cultivar aqueles que mais nos agradam.
Evitar ao máximo o paletó e a gravata, os chatos que falam no ouvido, as mulheres que resolvem tudo pelo telefone, os bêbados que mudam de personalidade quando lúcidos, os vizinhos muito prestativos e todo papo do qual participem mais de três pessoas.
Longa caminhada solitária pelo menos uma vez por semana. Não discutir preços — é melhor ir embora sem comprar. Não guardar ódios a ninguém. Dormir oito horas e, acordando, continuar na cama enquanto puder. Recusar-se terminantemente a beber uísque que não seja escocês legítimo, preferindo a cachaça como alternativa. (Isto vale apenas para quem gosta de beber e bebe freqüentemente, como é o caso do autor dessa receita. Neste caso, a aceitação de qualquer bebida é moralmente inquietante, pois atravessa a fronteira que separa o prazer do vício.)
Ser condescendente com o comportamento sexual dos outros. Tentar compreender cada pessoa, evitando julgá-la. Saber exatamente o momento em que os amigos gostariam de estar sós. Ter caráter bastante para reconhecer as qualidades positivas de um eventual inimigo. Treinar, como quem faz ginástica, para ser sinceramente modesto. Saber contar com irreverência histórias em que faz papel de bobo, e que tenham acontecido realmente.
Viver tão intensamente que possa dizer à morte, quando vier: “Já veio tarde.”

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

O dia de voar...

Sempre à frente, prestando atenção, questionando, respirando e tentando compreender, respirando e tentando achar uma causa, respirando e me programando para a próxima válvula de escape que tocaria... e o porquê da palavra “saída” sempre existir em minha vida, qual a organização tamanha que me tomara e me levava para longe de meu grande desejo: me humanizar.
Quando criança, em algum ponto de lá pra cá, deixei derramar pelo caminho um pouco da areia da leveza que estava num potinho pequeno que tenho até hoje. Para completá-lo, eu, alguns anos atrás, coloquei um pouco da terra da esperança... ela me era suficiente em alguns momentos, em outros me fazia refletir- quanto tempo mais eu precisaria dela? Deixaria que apenas ela, unicamente ela, segurasse a minha mão?
Nunca tive muito medo, agora o tenho... agora o sou, de fora para dentro- exatamente assim. Abri mão da livre mansidão de um pássaro que eu, acho, nunca fui. Ah, mas como amo olhá-los! Se eu pudesse diminuir de tamanho (talvez como o de uma semente de Ipê) e subir em um albatroz... o mais veloz de toda a Terra! e viajasse pela amplidão intensa do mar... faria-me renascer- nasceria de novo uma menina de cabelos e olhar castanhos, mas de alma azul.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

O dom dos surdos

Elas existiam... faziam tudo o que fosse permitido, e também agiam fora de permissão. Arrepiavam meus braços; misteriosamente dormiam anos a fio em um quarto do meu cérebro, chamado Lembrança; arrancavam de mim os mais soltos risos e, por meio deles, implantavam o bem nesse dia de outono; despertavam a bonita arte do ensinar e do aprender... a via da troca de humanidade; elas, graciosamente, aproximavam tudo o que era distante, tudo o que era frio e seco... As palavras têm em si o coração mais forte dentre todos os seres vivos, produzem uma quantidade enorme de oxigênio e nutrem-nos de forma completa. Movidas pela missão de se fazer sentir.

Não necessitavam mais que uma boca para fazer a transmissão de uma língua qualquer... Mas eu aprendia, durante alguns meses, que as mãos lidavam com as palavras de um jeito único... incrível e belo. O mundo sem a audição... o sentido da música, do tom de voz delicado ou bravo, do violão dedilhado, do vento ultrapassando as folhas, dos pássaros repletos de vontade de cantar para que acatemos sua paz de manhã.

Eles têm o dom de sentir, tocar, a experiência de educar os olhos para verem além do que o ser humano mostra, dos barulhos numa rua, do ritmo de uma dança... os surdos captam as envolventes mensagens da vida e as transformam em sinais. São poesias espalhadas no meio de uma multidão de ouvintes... poesias encantadoras e expressivas. Podem ser, ao mesmo tempo: poeta, poesia e a mais viva das interpretações.

“ Sei ouvir com os olhos e falar com as mãos”