segunda-feira, 29 de novembro de 2010

"Minhas raízes estão na terra e dela me ergo desnuda.

Cachoeira- queda-d'água.

Quero um grande painel heróico - em que eu literalmente me es-pa-lhe. Preciso de grandeza e de cheiro de capim. Saio dos meus abismos com as mãos cheias de frias esmeraldas, transparentes topázios e orquidáceas safiras.

Sou uma vibrante clarinetada de cristal."

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Nosso embrião...

Não sei como se deu, não sei explicar a febre alegre que se tornava o meu riso naquele momento, não sei como meu espírito quase não saiu pela boca ou não escorreu em meio aos dentes de meu sorriso eufórico... Eles faziam isso comigo, eu tenho certeza. Estava fascinada. Era estranho: eu já os amava e não tinha me dado conta... e isso era o melhor, a sensação incrível de se estar amando e, finalmente, não precisar afirmar e ter como certo o sentimento mais florido de um pequenino e frágil instante.
Os seres humanos se instauravam e faziam a maior festança em mim- dançavam, vestidos com roupas azuis celestes, verdes claros e rosas de todos os tons, ao ritmo de um samba... - e isso acontecia dentro de meus olhos, escorregava em minhas artérias e misturava-se gradualmente ao marcante vermelho do sangue que esquenta o corpo.
Estávamos no ponto de ônibus e lá, em pouco menos de um minuto, começamos a gargalhar como bebês quando a mãe beija suas barrigas. E aquilo, bom... aquilo poderia ser tão simples como o vento, e foi. Mas ainda me parecia com o que tanto tenho buscado: a mais pura comoção de ver vida na vida que acabara de brotar em mim... em nós.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Mensagem de um bom velho...

Nunca mais o vira. Suas malas, jornais empilhados de datas passadas, algum agasalho por cima disso tudo... aquela figura nunca saira de minha memória. Todas as madrugadas, ao chegar na plataforma do ônibus, lá estava ele. Todos os fins de tarde, ao entrar no mesmo ônibus de volta para casa, ainda lá... estava ele. Não tinha como não conceber aquele ser humano em meu coração. Um senhor com uns 72 anos bem marcados nas mãos pesadas e sujas, no rosto desesperado - procurando, procurando uma saída para refazer todo o ínicio de caminho que o levara até aquele banco na primeira plataforma de ônibus, em cima da estação de metrô.
Vivia ali. Vestia um sobretudo acinzentado e de lã, até nos dias mais calorosos... calça de moletom, tênis nos pés. Bem quentinho, bem quieto. Concentrado, sempre que meus olhos o alcançavam, via-o repleto de cuidados com o jornal nas mãos, parecia estudar aquelas letras miúdas que traziam notícias do mundo, do homem, da vida... e o que ele fazia com tanta vida dentro de sua vida? Horas levantava a cabeça e era ele quem agora arriscava-se a passar a vista pelo monte gigante de gente que circulava com toda a pressa que o relógio exige, mas que os passos muitas vezes não são capazes de entrar no mesmo ritmo.
Ele não. O velhinho japonês parecia pairar na órbita do que chamamos de existência. Seu lar era tão organizado, que talvez tivesse se tornado meu exemplo de organização, sem que eu me desse conta...
Sua carne estava tão cansada e tão pouco limpa, mas seu espírito era tão firme e fresco e de simples bondade. Eu o admirava.

Semana passada não o encontrei... ontem também não, nem hoje...

Deus me deu aquela imagem de presente por alguns meses. E eu não o esquecerei.