quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Tu és arte viva

Ela usava a palavra "bárbaro" como se brincasse com as sílabas.
Era algo tão ímpar e abundante de energia que eu me deslumbrava a cada milésimo de segundo em que, sem a menor espera, ela dizia com o açúcar da saliva: "isso é bárbaro, não é?!". Bárbaro era ter me aconchegado durante nove meses naquela mulher, com aquele sorriso, lábios bem desenhados soltando frases que amaciavam a audição do mundo.
Pouco entendia como suas pérolas do rosto marejavam facilmente, sua pele de súbito entrava em puro estado emotivo... mas era assim: em muitos de repentes ela amava... e se encantava... e descobria... e ria pelo momento eterno!... e dançava (como dançava!) da maneira como um pássaro adulto é livre, sem ao menos pensar que se está num estalo de liberdade.
Seu sangue de índia fazia todo o sentido quando deitava-se conosco no chão ou passava embaixo dos olhos um lápis preto... a fim marcar a sua luta interna e apaixonante pela vida.

Um dia, te prometo, irei pintar em um quadro a tua imagem... basta um pouco de luz das estrelas no céu do campo, perto do mês de novembro, e eu poderei riscar as tuas linhas. Estará vestida de um azul que nós ainda não conhecemos, mas que numa tarde veremos juntas, deitadas na grama... sob a melhor vibração que tem um violão.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Era uma tristeza tão junta e solitária... parecia uma semente de girassol instalada exatamente no meu centro corporal, entre os órgãos vitais que me permitiam os movimentos lentos essa manhã enquanto tomava um pouco de café fresco. Levantei pensando em como encontrar limpeza para o espírito, em como o tempo me ajudaria... já imagino nós dois com vassoura, panos e produtos específicos a cada entranha, espacinhos cheios de pó que eu não lembrava que moravam em minha carne também.
Descobrir o que se sente às vezes é trabalhoso. Não tentar identificar deve ser melhor, eu acho... Começo a aceitar os sentidos vendo a paciência de minhas violetas ao serem atingidas pelo vento áspero que a chuva de ontem trouxe, imersa na escuridão concentrada do quinto andar. Não murcharam, não rasgaram à fúria das gotas que lhes batiam, nem desbotaram o tom roxo que lhes cobre a face como que pintadas pela criança mais terna e mais humana dentre os homens.

Sim, fiquei também molhada. Mas ao contrário delas, chorei...
de saudade.