sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Nós


Visão: de dentro para fora. Sim, o cego vê. E, ao cerrar os olhos, eu via melhor - eu nos via melhor. Nós ultrapassávamos os amantes e os amigos, perfurávamos a dor do longo oceano dividindo terras, capturávamos as máscaras do tempo florido, conquistávamos as viagens à Lua, nos sintonizávamos aos poemas de Manuel Bandeira, assobiávamos a canção dos Scorpions, balançávamos a rede da praia, cheirávamos a manga madura, provávamos o amargo do café depositado no canto da boca, dançávamos vagarosamente ao som de nossas respirações silenciosas, colhíamos imagens do imaginário, sentíamos com delicadeza o calor do beijo saudoso. Eu estava pronta para que sentisse a minha falta, estava pronta para pentear meu cabelo e alisar as veias do meu coração com a ternura de uma mulher e a graça de uma menina. Tenho a saudade bem verde. Mas preciso aprender a cuidar do meu amor por mim. Quando quiser me contar sobre uma tarde em que tenha tomado um delicioso sorvete de maracujá... estarei aqui.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Desencanto


Eu era flor amarela e tímida. Enfeitava-me de poesias entre os caules de um sofrimento agudo, para que me visses vestida do tecido mais sentimental que o mundo terreno pode oferecer. De noite, no descanso da respiração e dos batimentos cardíacos, me deitava sobre a fina areia de um espaço adocicado, onde todo o preparo emocional era condicionado ao seu bem, quando amanhecesse. Meu Sol tornou-se miúdo ao perceber que as energias luminosas saídas de mim não eram refletidas por ti... e o teu silencio começou a não sustentar os pedaços sonhados pela natureza do espírito. As palavras curtas de uma saudade sem sossego, a esperança cansada de ser cultivada de longe. Eu era mais amarela que tímida, mas ainda assim, timidamente eu desaparecia - a fim fertilizar a terra seca.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

O desconhecido



O creme e o frango se incorporavam à saliva... aquela pasta cremosa e salgada me alimentava o corpo solitário na mesa central do restaurante. Todas as outras estavam preenchidas de seres em conjunto. Eu os espiava com uma invisibilidade que me dava o direito de tal ato. Era poesia olhar os enamorados, escutar os risos das meninas solteiras, acompanhar o desleixo dos três rapazes ao lado, reparar na graciosidade da troca de confidências entre mãe e filha... Dedicava-me a uni-los todos em meu filme interior, enquanto mastigava com lentidão a coxinha e banhava a secura da garganta com goles gelados de suco de maracujá. Tinha a impressão de que poderia recolhê-los nas cadeiras vazia que me cercavam - a fim de costurar todos os diálogos, todas as evoluções, todos os tempos, todas as esperanças, todas as frases descontínuas sobre amor, todos os perfumes, todos os paladares, todas as crenças, todos os medos... para onde iam, de onde vinham. Qual a flor que mais lhes fazia bem. E em quem pensavam quando a regavam.
Porque a simplicidade de conhecer o desconhecido nunca me pareceu tão saborosa.
Desejei ardentemente o outro.

domingo, 18 de dezembro de 2011

Perda de saudade


Uma multidão. Eu estava a ponto de me dissolver, como açúcar em uma grande quantidade de água. Fechei os olhos. E tudo o que ouvia não se podia distinguir. O som de dentro nunca foi tão diferente do de fora. Aquelas vitrines e aqueles manequins e todos aqueles produtos e seus consumidores acelerados. Passava e repassava a mão pelo rosto, pelos braços, pelos olhos exaustos. Involuntariamente começaria a sacudir a perna direita e coçar a nuca. Não vinha ar. Não ia ar. Os pulmões sugavam o suficiente para que não faltasse oxigênio à corrente sanguínea, ao cérebro - e para que eu ficasse ao máximo atenta, a sentir as batidas densas do coração. Expirando a alma... Expirando... Se eu não pausasse o movimento externo, cessaria o movimento interno. Perderia a consciência de vida, perderia os sinais, os reflexos... a saudade de ti.

sábado, 17 de dezembro de 2011

Por pouco...


Uma questão apenas... você sentiria a minha falta? Em tempos de distância, comprimo-me inteira a fim de que alguma gota de sabedoria escorra pelos poros abertos. Aconselharam-me a não dar-te mais notícias. Difícil. Ao mesmo instante, muitos outros caminhos se conectam ao meu presente. Vivo em um sonho à parte - e espero. Hoje coloquei uma saia florida... flores azuladas. Senti-me bonita. Uma beleza capturada pela grossa saudade do beijo. O vento bailava por entre o pedaço de pano e minhas pernas. Eu observara tudo essa tarde... como uma criança de quatro anos ou como uma senhora de oitenta e dois. Andei de mãos dadas com todas aquelas pessoas do parque. E eles me amaram. A sua imagem já estava mais calma e lenta e doce... transparente como a água que escorrega das nuvens no fim das tardes primaveris. Sentei no banco de madeira e conversei com alguém... um estranho que me sorriu. E eu ri - quase gargalhei. Voltar para casa não estava nos meus planos... por pouco não dormi na rua, por pouco não cantei alto, por pouco não passei no cinema para assistir à última sessão, por pouco não caminhei descalça pela Paulista, por pouco não li todos os romances da livraria, por pouco não peguei uma bexiga amarela que estavam distribuindo, por pouco não pedi para que aquele rapaz me amasse por alguns segundos. Pequenas esperanças de liberdade. Aprendi a estar sozinha.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Partir.


Às vezes me invadia uma canção de fuga... fugir. Correr corajosamente para longe. Um longe onde meu coração caiba, se aconchegue numa coberta costurada por mãos antigas e sábias, com o cheiro do seio de minha mãe e a maciez do colo que um dia me despertou a divindade da alma. Hoje minha saia se mistura à terra, exposta à quentura do sol ao meio-dia, com a temperatura preparada para sugar minhas desesperanças, minhas desconfianças, minhas infelicidades, minhas mortes, meus pregos... meu desassossego. Se o grito dos meus órgãos ecoasse para fora dos lábios, eu já estaria dormindo em um hospício. Mas não... sempre aquietei a correnteza interna. Dizer adeus a tudo... e partir... à procura de uma nova espécie de flor.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Passagem


O tempo iria passar. O tempo está passando... e, conforme eu escrevo e preencho esse espaço com letras passageiras, também engulo a saliva lenta, acumulada dentro de minha boca deserta, a cada minuto. E, assim como há quentura na luz da vela, há o frio na solidão da Lua. Eu tenho medo de quem fui. Tenho medo do quanto queimara sua pele delicada. O amor é perigoso. O meu amor é perigoso- compreendo que não o queira mais. Porém há uma poesia no tempo ainda desconhecido. Mesmo que o resto da saudade me consuma a paz, eu espero te reencontrar daqui alguns anos e te acalentar na doçura de um abraço demorado, de quem agora pode lhe compartilhar um pedaço da Vida.
Deitados na grama da Realidade, dentre os lírios da Desilusão.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Tempo doído


Achei que naquela madrugada eu morreria de dor. Puríssima dor no coração. Enfraqueci-me ao escutar sua voz... fria e dura, chamando o meu nome. Rasgada por dentro eu estava, profundamente ensanguentada, pela ação dos próprios espinhos. Não imagino para onde meu espírito viajara nos minutos de dormência. Insistia para que o choro viesse e me libertasse de todo o mal que nos fizemos. Queria ter forças para te abençoar...
Deus, que o dia termine, por favor. Que venha o cheiro novo, do ar novo, da manhã nova... desencadeando em mim todas as esperanças acumuladas no tempo do amor e no tempo do sofrimento.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Uma papoula...


Eram segredos, aos poucos, revelados. Tudo com muita gentileza, com muito cuidado. Quase que não havia ar nem tempo a nos separar. Eu podia tocar seu sangue, suas pupilas... e o mais íntimo arrepio de sua paixão por mim. Em conversas, fomos bordando verdades antes esquecidas. Joguei minhas mãos ao céu e agradeci a lembrança do seu rosto na calmaria de minha boca. Tempo ao meu bem... A sua ausência me causou um caos e eu não consegui me desencantar pelo teu sorriso. Flutuo no rio da realidade... esperando a tua resposta. Leve-me para passear, de novo, no seu disco voador ou num enorme carrossel- e atravessemos a luz celestial.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Pensar...


Era difícil não pensar. Eu - que havia me familiarizado a pensar nos porquês, nos talvez, nos finais, nas totalidades, nas letras, nos paladares, nos cheiros, nas dualidades... Eu - que sempre pensei antes de sentir, antes de sorrir, de respirar. Agora... não pensar? Como se faz? Como amar sem pensar? Como não dosar tudo? Como não balancear os beijos? Eu não sei. Juro que perco toda a realidade inventada, perco todos os ângulos de visão e os de audição, todo o aparato sanguíneo e a disposição firme dos ossos. Durante os anos de vida já vividos, só interpretei, analisei, constatei. Que erro foi o meu viver de ontem. Acidamente me apaixonei por mim. E hoje procuro luzes que não existem. Há sombras de árvores pouco floridas, muros pichados com arrependimento. O que pensarei amanhã?

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Muro alto...


Eu gostava de ver os casais... tenho gostado mais do que antes. Observo-os como uma expectadora de sensíveis filmes de amor. É agradável tentar transpor meu coração ao deles, e experimentar os mesmos mistérios, o mesmo contexto, as mesmas viagens, o mesmo beijo, a mesma espera ansiosa pelo próximo abraço. Eu sei que algo falta, há um quadro branco em mim, à procura de um tanto de cor. E a união dos corpos é uma vitrine cheia de telas pintadas com as mais contrastantes tonalidades. E tudo isso me ilude. Amo a ilusão e me felicito por sonhar o desejo espiritual e físico do outro. Não passo de uma apegada ao que é de fora - os relacionamentos íntimos afloram em mim alguma capacidade oculta de amar e de deixar que tu ames. Mais difícil é permitir o amor de alguém por mim. Eu não tenho medo de amar, exatamente. Tenho medo é de abrir-me a ti, para que me inundes de carícias.

Esquecimento temporário


Era fundamental o esquecimento. Uma hora o vento que faz a pipa subir no ar haveria de ser mais forte que eu. Hoje o vento está assim... está seco, está raivoso, está infiltrando os arredores de minha casa. E eu ainda lá, te segurando. Aguentando firme qualquer que seja a tua tentativa de voo, sem me importar com as direções em que teu corpo se faz veloz. Veja, apenas uma única linha traçando a nossa ligação em meio ao infinito céu - e eu não sei se posso confiar nela por muito tempo. Se me esquecer da pipa, continuarei, com o nascimento de alguma coragem, a amá-la. Mas como é horrível pensar em te soltar. Os ares são tua casa. Não és feito para que eu te empine o dia todo. És mais valente que eu. No fim da tarde hei de te permitir a paz... pelo meu próprio bem, porque todos os meu pensamentos não te abandonam e sufocam meu corpo frágil. Que haja o esquecimento temporário... para a tua renovação em mim.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Existir...


"Que tolo fui eu que em vão tentei raciocinar nas coisas do amor que ninguém pode explicar..."
Raciocínio puro. E, depois de raciocinar, esquecer... era sempre essa a ordem das coisas. Pensar desde a primeira junção de lábios. Esquecer desde o primeiro medo de perder-se. E quando dizem que faz parte do equilíbrio da vida se desequilibrar ao amar, eu contesto fielmente. Mas não vejo outro meio. Aliás, eu nunca tive "meios"... foi sempre: começo e fim. O que é o meio? O que é continuidade? A desistência de tudo me assustava. Porque, nessas horas, eu quase que desistia de mim. Passo dias teorizando... sim, eu sei. Há pouca convivência da prática com a palavra. Alimento-me de palavras- as mastigo com todo o calor de minha boca. Pode-se agir com frases, pensamentos e silêncios. Não pode? Porque, se não... meus olhos, meu sorriso, minhas orações, meus chamados, meus cantos, meus textos, meu violão... tocam o vazio da existência. E eu desejo, amorosamente, existir.

domingo, 4 de dezembro de 2011

Passará...


Porque, vê... há agora o vazio, o desconhecimento, a brisa sem direção, a ausência, a nudez. Há pequenas e grandes verdade sobre nós. Já sentamos debaixo da mesma árvore- não mais. Já colhemos as flores, cada um a seu modo. Sinto gratidão por isso, sim. É sob a ótica da gratidão que busco observar o mundo. É... é questão de busca, de paciência para com a busca. Somos um breve pulsar. Deixe que o tempo cure... deixe que uma Força Maior proteja. Permita a ação do Invisível no silenciar das nossas respirações. O que há em nós é sobretudo cansaço- estou cansada... você também. Ergo as minhas armas, porque no próximo segundo eu me transformo. E, por me transformar, eu sei que tudo se transforma e tudo é passageiro. E eu vou passar... você também passará.

sábado, 3 de dezembro de 2011

Dia internacional das pessoas com deficiência


"A experiência humana não seria tão rica e gratificante se não existissem obstáculos a superar. O cume ensolarado de uma montanha não seria tão maravilhoso se não existissem vales sombrios a atravessar."

Helen Keller - escritora surdacega

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Angústia...


O oxigênio era quase inexistente. Eu forçava a entrada de algo que me ampliasse os pulmões e abrangesse o cérebro, mas a memória detinha o controle total da angústia- se a gente não se atenta, a angústia rabisca a vida  com a grosseria de um carvão, e depois torna-se difícil a limpeza da casca que habitamos. A secura do ar enche-nos das mais diversas alucinações... enquanto tocamos o próprio corpo para a percepção de um ínfimo de realidade. Não há prazo. O término vem quando já adormecemos... no colo de Deus.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

O Ser do Perdão


Como é inconstante a culpa. É como se cada dia uma bala arrebatasse as entranhas do peito e chiasse segundo após segundo, num eterno balanço do que nunca voltará. Saber que amanhã acorda-se assim novamente. E novamente se pretende gritar para que a bondade distante dê algum sinal de vida e venha curar a intrínseca dor de não haver mais o ontem, nem o antes de ontem, para que hoje desabroche o riso de minha criança. É possível matar-se apenas pela ação dos pensamentos? Acredito que sim. E acredito que estou indo... porque, enquanto eu não me perdoar, não há o perdão do mundo para mim. Meu espírito ainda não reteve o dom do perdão. É um dom. Evolui tão pouco desde que você foi embora. Continuo a chorar, encostada nas cascas velhas daquela árvore... e a esperar que talvez ela seja o Ser que me salvará das feridas que um dia cometi.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

O mistério da dúvida


Recomeço a acentuar a sola dos pés na grama... e ela é fresca e verde e tem compaixão por mim, que estou descalça. Mas como é duro não sabermos se vamos para o Leste ou o Oeste- nada tinha uma ordem naquele fim de tarde. Por que necessariamente seguir para um lado e não para o outro? Por que a indecisão violenta toma conta dos traços de nossas mãos? As digitais parecem sangrar em meio ao medo de não se saber. Somos arrebatados pelo amor à organização. Por que sempre organizar? Estamos a racionalizar demais... amanhã eu subo as escadas da direita ou da esquerda? Oras, meditarei embaixo de que árvore? Sempre a mesma? A dúvida espanca-me a alma. E se me perguntar mais uma vez se estou certa do que farei... eu correrei- para que resposta nenhuma chegue ao teu ouvido.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Falta


Sentimento de falta. "A falta é a morte da esperança", dizia uma canção. E eu te acompanho de perto nessa falta. Acho que é a primeira vez que a sinto. Fez-me perder a noite passada pensando em ti... os nervos não sossegam até que me envie algum sopro de libertação. Eu danço a triste agonia de não te ver mais às seis das manhãs e ouvir suas histórias... tão cheias de novidade frente ao meu universo sem ondas. Tu me ensinastes sobre a enorme flexão das ondas e quão reais elas são... pra quem vive em busca de equilíbrio, período após período, compreender que o desequilíbrio das ondas possui algo de maravilhoso é puramente bom. Fico a imaginar se escuta minhas juras secretas no meio das palavras apertas, das letras empurradas, dos espaços ocos que teimo em te entregar. São verdades como verdades são as flores. E, se quero presentear-te com uma flor, é porque quero que ela seja tua, não mais minha, nem que me lembre, mas que te lembre que só há a existência das flores se permitimos que elas igualem a nós.

domingo, 27 de novembro de 2011

Um tempo...


Fique tranquilo... é só um tempo. Sabe? Tempo. Questão de prepará-lo. Questão de reinventá-lo... e eu estarei pronta. Peço... não me pergunte o porquê do que faço ou do que escrevo. Apenas aceite... aceitar tem um valor importante pra mim. E eu aceitei o tempo... o tempo meu. Não posso lutar contra ele, nem posso pedir que me espere ou que responda às minhas preces. Mas se eu estiver livre a amá-lo... então o tempo me ama também. E ficar sozinha não é ruim assim. Acredite, há uma energia imensa no ato de solidão. Não que eu tenha me acostumado, mas confesso que retiro forças preciosas de lá... daqui. Logo te encontrarei. Daremos aquele abraço. Sabe? Com verdade. E, enquanto caminhamos na grama, você bem que podia me chamar pra tomar um café com pão de queijo... e, se quiser, faremos até algumas loucuras engraçadas. Sabe? Pra contar um dia às crianças ao nosso redor? Bom, ou eu te convido... tanto faz... só quero exprimir meu desejo de passar uma tarde rindo das suas expressões faciais e te escutando falar de algum amigo imaginário que te acompanha pela vida. Sei lá... são só ideias. Ideias de um tempo que ainda não chegou e que não sei se virá. Mas são boas, não são? Gosto desses sonhos simples de sonhar.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Inquietos


Pois que, durante noventa e um minutos, eu voltara a crer no amor a dois. Foi como embalar-me com seda alaranjada e dizer-me uma voz lá no fundo: "Vai, tente mais uma vez. Um amor puro e doce... a suavidade dos pensamentos, a delicadeza no beijo, o cuidado no toque e nas palavras... a natural coragem e todos os gestos naturais, como o abrir de pétalas da violeta num domingo. É só permitir-se a descoberta de alguém."
Sim, senti-me inquieta ao acariciar com os olhos o envolvimento dos personagens do filme- a essência de um açúcar escorreu por meu rosto, misturado ao salgado das lágrimas de dias anteriores. Foi especial. A ideia que faço do amor não consta no amor do tato... mas eis que é tão belo em meu imaginário- meus braços o recolhem na cama todas as noites e eu adormeço na invisibilidade de um sentimento que amamenta a Vida.

Templo



Uma sede intensa de refúgio...
A ideia de refúgio sempre abençoou o meu corpo frágil. Refúgio seria como beber mel aos goles. E eu esperava o dia em que pudesse me refugiar exteriormente... pois que internamente eu me fazia templo de mim. Em alguma hora do dia, acendia uma vela, um incenso de paz. Ajeitava um vaso de flor ao lado de imagens de Grandes Mestres... e adorava Deus. Tudo em meu templo... em tempo de mansa solidão.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011


Imaginação. Até onde? Até onde um conjunto harmônico de pensamentos -como uma orquestra- dá-nos a liberdade de ir a qualquer lugar? A imaginação é dotada de imensidão... e nós, homens, desconhecemos o poder da viagem. A qualquer instante, podemos nos deparar com criaturas fantásticas e toda a sua flora e todo o mistério, nos quais nós adormecemos a realidade, cochilando arraigados nos braços do irreal. Porque é bonito. Sim, são transcendentais as imagens agora vivas! Elas possuem um cheiro de incenso que toma os ares antigos do meu peito. Doam-me crença. Eu sonho, finalmente! Durante o envolvimento, meus pés se distanciam do asfalto e ganham a velocidade de luz em direção ao invisível... que me é tão visível, perante os olhos de reflexos mais doces, mais azuis, mais meus.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011


Everything that I said I'd do
Like make the world brand new
And take the time for you
I just got lost and slept right through the dawn
And the world spins madly on...

terça-feira, 22 de novembro de 2011


Encolhi meus ombros porque a vida me está encolhida. Tristemente silenciosa. Não ilumine minhas vistas, deixe-me encolher toda no escuro do sono, da solidão cansada... cansaço profundo, acúmulo de semanas em que me perco. Estou calada do lado direito do peito, vazia do lado esquerdo. A desordem altera o meu grito ao Universo- torna-se grito de onça que nota o sumiço do filhote. Calada aos gritos... é como me encontro ao meio-dia de um dia adormecido. E dias assim espremem as veias, esfriam o sangue, dilatam os olhos, secam a maciez da pele, compactam os órgãos, levam-me ao mergulho na morte fresca.
Esqueci: como se sorri um sorriso bom? 
Boio no nada de ser. 
Traga-me um lírio hoje, um só... e me dê um aperto gentil de mãos. É tudo.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011


Pouco depois de começar a oração, o choro me veio como a visita, à tarde, a um grande oceano. Chorei como se não houvesse perdão, como se as mãos ainda secas não tivessem condições de limpar tantas gotas, de uma só vez. Sacudi toda a carne que me embrulha. Espremi minhas pernas contra o peito a fim de apagar os soluços, abafar a dura respiração. Apertei minhas unhas contra a palma da mão e desejei, ardentemente, que você me empurrasse, enfim, em direção às águas. Estou sedenta por um carinho nos cabelos, como minha boca está pelos fios de lágrimas que se encurvam ao alcançarem os lábios. 
Presa... estou presa, pois sou presa de mim. Perdoa meu coração esta noite.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Não era tão simples quanto amarrar os cadarços do meu sapato, mas sim... alguma simplicidade circulava imersa no sangue da face. Talvez fosse a respiração ou o modo mais lento de segurar a xícara de café pela manhã ou a doçura no tantinho de água distribuído na terra das flores do meu quintal... Não sei. Mas certamente eu piscava com tamanha singeleza durante horas e horas... e isso me surpreendia o abrir de olhos depois, amoroso, à humanidade. Além de apenas andar, percebe como meu calcanhar tem se conectado ao chão? Sim, é a chegada da realidade. Eu me esticara tanto que alcancei uma realidade adormecida. Feliz em conhecer o que me era antes tão intocável.
Bom lembrar que sou feita de carne e que ela não viverá para o sempre. Bom lembrar também que a minha aprendizagem na Terra navega na infinita alma... Há isso: a existência de tempos em que me lanço em espaços bem pincelados de verde.

domingo, 13 de novembro de 2011

Esvaíra-se de mim qualquer desejo ou fome de amor. Cheguei a um ponto de solidão em que, sinceramente, só queria estar só... ser só... só comigo. Acreditei tanto. Alimentei tanto. Imaginei demais. O grau de sofrimento interno me ameaça o semblante externo. Sempre me desviei para o plano do irreal e isso me fizera desenhar histórias... sim, eu vivia de histórias inteiras e bem detalhadas, construídas por personagens também ficcionais e distantes do mundo físico. Se eu saísse desse lugar, não continuaria sendo o que sou. Então... o que seria? O que seria da minha natureza? Eu tinha uma? Ou eu seria toda elaborada por pensamentos fantasmagóricos? Por isso. Por isso não tenho meios de amar... eu nem cheguei a conhecê-los. É possível amar sem sequer saber o que se é? Como repartir a minha irrealidade com alguém? Eu estava quase fora de mim. E a solidão me dá segurança- difícil segurança.
O porquê...
Desde que eu te retirei, com todo o cuidado, da minha vida, me pergunto também... o porquê do meu ato. Ato tão medroso... me lembrou tanta meninice da minha parte. Penso em você todas as manhãs, tão logo à abertura do céu. Emano toda a minha reserva de amor ao seu ser, e é pequena... mas é o mais perto da pureza que já consegui compor.
Eu senti dor confusa ao imaginar o futuro. O futuro e suas vestes brancas, ainda por colorir, despertaram em mim choro de criança. A mente desesperou-me o coração, e eu esmaguei a bonita esperança de respirar ao lado de alguém, retribuindo-lhe todo o bem-querer.
Não há o porquê... a compreensão de mim me é triste às vezes. Porém a busco... incansavelmente busco palavras que acalmem este espírito. Estou correndo para me salvar.
Não encontrei formas de acolher condições que me permitam a paz interna, não me envolvi de forças saudáveis para te fazer adormecer sereno no meu colo. E ainda não acredito em minha ternura... para te abraçar no aconchego dos meus braços solitários.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Era como desaparecer. Tão fácil a perda de mim. Enquanto ouço essas canções, sinto ser levada de mim mesma, por mim mesma. A concentração da mente foge à qualquer tentativa de controle e eu começo a tornar-me passiva de minha própria história de vida.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Se eu pudesse segurar por alguns segundos sua mão de novo... e deslizar meus dedos sobre a palma dela, de forma a te lembrar do nosso primeiro toque tímido, leve e sagrado, eu o faria.
Sempre tomo essas coisas como sagrado, pois são tão detalhadas em meu interior, que cada movimento me acompanha, no registro desacelerado da noite, antes de me soltar à sutileza do sonho.

sábado, 5 de novembro de 2011

O clarear da existência

Quando me conhecer, conecte-se a mim através da calmaria de um gesto.
Por favor, não se apresse no toque primeiro da pele. Deixe-nos saborear a quentura do trançar de pêlos. Conduza a minha alma ao baile de cores novas... Ah, não me proteja das gotas de chuva esta noite! Gargalhemos sob o nascimento dela e oremos pela beleza do infinito celestial. Seja um amigo... para a vinda da confiança. E, por confiar, você me seria parte de uma liberdade crescente. Despreocupe-se com as palavras... mas apenas as solte quando todo o seu ser compreender que nelas há amor. É tão fácil pontilhar o prazer do simples- apaixonar-se por um instante... com o pé na areia, com o corpo na rede de artesanato, com o caminhar dentre os ipês do bosque, com a leitura de uma poesia na manhã de domingo, com a mordida numa fruta fresca da feira, com o cheiro do café por toda a casa após o almoço, com o folhear do álbum de fotografias antigas, com o cochilo na cama da mãe, com a maciez do abraço de uma criança, com a surpresa do riso sem controle, com a conversa boa com um desconhecido no ônibus, com a visita de um passarinho na varanda, com o personagem de um filme, com a presença de lírios no quarto, com a verdade resgatada na meditação... de que somos seres espirituais. E a energia doada em cada "agora" revela a natureza sublime da vida.
Era bonito vê-los parados em meio à multidão acelerada, na estação de metrô. Houve a concentração total do amor naquele mínimo espaço, delicado, criado por dois enamorados.
E imaginar que meus olhos puderam alcançar um momento assim, tão bem decorado... de beijos sorridentes.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

O silêncio da gentileza

Elas eram lindas. Sim... lindas. Aqueles gestos tão simples e incompletos: perfeitos à visão infantil do silêncio. Eu fui levada ao céu por pequenos surdos. Então é assim? É assim que acontece o que o amor chama de "entrega"? Se for esee o sentimento de libertação que penetra a borboleta na saída do casulo, que invade a flor ao ser beijada pelo beija-flor, que incendeia a Fênix... posso afirmar, sorrindo, que eu também participei da Liberdade do mundo.
Minhas mãos eram puro desequilíbrio comparadas às delas- firmes e corajosas. Ser ensinada por dedos envolvidos de uma cultura nova... Um sonho todo vivo me esperava a exploração. Explorar o mundo da surdez para a descoberta harmoniosa dos sentidos.

Por fim, ele, que se afeiçoou a mim, deu-me o beijo pedido na bochecha e eu retribui com outro, singelo, na testa. Nossos olhos se encontraram, fixos, por algum tempo... E, depois, sem qualquer espera, aproximou meu rosto com o toque das duas mãos, alargou os finos lábios e me presenteou com a melhor lembrança de quietude: um segundo beijo. Acho que me arrepiei. Soltei a minha audição, abandonei-a na passagem de calor entre o meu coração de mulher ouvinte e o dele, de criança surda. Sintonias da natureza... sintonias que acontecem - como um sopro de gentileza.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

O andar só às vezes me satistazia tanto. Independência: fortaleza interior. Ouvir o barulho que a grama faz quando assentamos o pé lentamente durante uma caminhada com o nada. O meu envolvimento com o nada era tão exato na manhã passada. Nada... nada me pertencia. Nem meu amor me pertencia. Os meus beijos não me pertenciam. Quem dirá os meus sorrisos... Tudo, tudo era do mundo. Como a chuva que cai e, caindo, molha a todos na estação de trem. Ela não é mais do céu, não é mais de Deus. É nossa. Você nunca seria meu... e eu jamais seria sua. E isso não era bom e nem era ruim. Eram apenas notas de liberdade que saiam do meu violão, cantadas a fim de que nos atingíssemos pelo mesmo contentamento que impulsiona o ser humano a dizer "eu te amo". Frase composta por três palavras singelamente secretas, como o desenho em giz de cera de uma criança, secretas como aquela fotografia tirada entre as águas claras na beirinha fina do mar, secretas como o gosto do café tomado na mesa de madeira na varanda, enquanto a imensidão do céu era pincelada em aquarela... tonalidades que nos atentavam à paixão pelo recomeçar. Como eu amo a ação gritante deste verbo: recomeçar.
Porque, embora nada se fixasse a mim... tudo seria, sempre, a minha eterna busca.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Eu me agachei... como quem agacha para desvendar as pequenas peças de um gigante quebra-cabeça. Pecinhas tão bem delineadas, tão bem encaixadas... que bem para o mundo a montagem graciosa daquela paisagem, que se mostrava toda sábia. Silenciosamente sábia.

Roger... revelou-me o seu nome com uma ligeireza de quem conhecia, desde o primeiro contato com o ar, os mistérios de uma mão. Seu sinal representava a liberdade dos cachos castanhos, inquietos e compenetrados à alegria pulsante de pertencimento. Naquela sexta-feira, em meio à tanta falta de som, fui conectada por ele ao mesmo aconchego... o de pertencer. Porque, sem encontro marcado, eu me vi ali. Agachada. Olhando, vendo, reparando docemente nas articulações daqueles dedos ainda em formação, naquelas expressões claras e vívidas de criança que sonha, naqueles olhos, molhados de luz, que me miravam durante um segundo ou outro. Quebra-cabeça... Ele era a junção de frescos pedações de espontaneidade, que o próprio beija-flor teria dificuldade em traduzir.
Minha fotografia da noite, meu respiro bondoso...

Esperança. Acho que o que senti foi esperança.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Será que um dia nos apaixonaríamos?
Nada era certo naquele fim de dia. Nada era certeza. Nada era perfeição. Nada era ordem.
E, assustadoramente, isso me alegrou. Alegria desorientada, desorganizada.
Desde quando eu havia sentido algo assim? Talvez nas cambalhotas da infância... Depois viera para cá. Cidade grande, cidade da imensidão. Faria parte de um grosso recheio de gente, moraria em mais um dos tantos edifícios erguidos sem mais nem menos, andaria pelas calçadas e ruas movimentadas olhando o relógio acelarado do pulso. Teria pouco acesso às sementes das árvores, aos galhos nascidos delas para que pudéssemos subir, sentir a casca e ter a chance de avistar o mundo por um ângulo mais natural. Dar voltas no quarteirão de bicicleta já não me era viável- nem um pouco. Ir até a praça e encontrar sempre um monte de terra vermelha, aonde investíamos toda a nossa imaginação e nos sujávamos até que o guspe chegasse a incorporar o sabor do suor.
Às vezes conecta-se em mim uma vontade extrema de conhecer quem eu seria se não saísse de lá. Se não viesse para cá. Se visse menos concreto. Se ouvisse mais o silêncio. Que choque foi esse que se deu? Por que me trouxeram? Eu não queria vir, ninguém perguntou minha opinião sincera. E se, por acaso, eu disse "sim"... acreditem, era papo fiado de criança.
Mas estou aqui... e só me lembrei disso tudo, porque ontem me cutucou a mesma liberdade... quieta e simples. Não tive compromisso comigo, nem me invadi de regras, de planos... Alguma coisa havia se instalado em mim e eu sei que ela viera daqueles nove anos, naquela cidade, com aquelas pessoas, aquele cachorro, aquela árvore em frente ao quintal, aqueles banhos gelados de mangueira com meu irmão. Eu nunca fui tão feliz. E era sim... felicidade.

domingo, 11 de setembro de 2011

Sonhadora... Acho que nunca havia utilizado essa palavra para me descrever. Gosto dela. Sempre a compreendi como alta demais em comparação a como eu via os meus pés raspando na calçada. Meus fios de cabelo eram racionais, minhas unhas pintadas, a textura de meus lábios, o balançar dos meus cílios... até a expressão interna dos olhos era racional. Passei estações e estações me observando assim. Quando acatava a doçura de uma flor, ao lado do metrô, em meio a tanto concreto, eu me sentia minusculamente pequena, essencialmente seca e pálida, extremamente sem cor alguma. Transparência de mim. Ela, sim, era uma verdadeira sonhadora. Verdadeira- uso esse adjetivo porque que me é simples e complexo ao mesmo tempo. E uma flor tem disso. Parece tão sensível, uma delicadeza inatingível ao tato humano... mas também pulsa força e confiança. Faz com que eu me lembre de duas sintonias tão próximas a mim: você e Deus. De novo... devo estar sonhando de novo ao escrever assim e me reportar à casca do secreto que existe em alguns sentimentos. Escutar-te me nomear como sonhadora automaticamente fez com que eu pudesse enxergar a minha carne. Às vezes faço pouco caso dela. Só vivo no dentro, no interno, no espírito, no coração, no centro de energia... que me espanto com o fora, o externo, a carne, o asfalto. Tenho medo dos extremos. Muito medo. A claridade tão clara e a escuridão tão escura me amedrontam. Tento me centralizar, mas escapo por algum furo que, de tanto cutucar e cutucar, faço passagem para o meu corpo todo. Para depois ir atrás de outro "novelo de lã no ventre da mãe" e brincar e lutar com o que sonho e o que é real. Tendência em me balançar no galho da árvore da ilusão. Se eu me arranhar por esse quintal... ou você me arranhar involuntariamente- acho que nunca seria um ato voluntário seu-, eu deixaria a misteriosa ideia de ser sonhadora. Por um tempo. E continuaria orando pelo seu bem, no fim do dia, sentada no meu amontoado de cobertores. Não estou feliz... mas estou sonhando. Confesso que hoje um pouco mais próxima da dureza do chão, mas ainda a flutuar. Como quem flutua para simplesmente... não morrer.

sábado, 3 de setembro de 2011

Agora...
Era só ter um meio, um transporte suficientemente rápido... e eu iria. Iria agora para lá. E me debruçaria com tanto desejo naquele último bloco de gramado, aonde está o seu corpo... que já não é mais corpo e carne, mas a puríssima e fresca natureza. Como as suas flores continuam lindas e coradas... elas possuem a cor dos seus vestidos rodados, todos realçados de juventude. Se eu, apenas por amor, tivesse a chance de te ver mais uma vez. Ou só de longe... em um daqueles bailes para os quais se produzia com toda a feminilidade do batom, dos anéis prateados. Eu juro... como sinto paixão pela simples ideia de estar no mesmo lugar que você. Seu lar deve ser numa casinha tão aconchegante, imagino-a ajudando incansavelmente os que aí chegam à procura de respostas, à procura de paz.
Venha um dia passar as mãos sobre os fios do meu cabelo. Venha... venha, nem que dure um minuto da madrugada, e beije a minha testa. Encoste a fortaleza da palma de sua mão no centro de meu peito... encaixe-a ali por algum tempo e massageie a minha vida. Serei como que um filhote de passarinho... sem penugem, sem capacidade para a busca do alimento... acalenta-me na sua manta, embrulha-me... ensina-me a alçar vôo do galho alto deste pé de larangeira.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Poesia de uma tarde

Acionaram, dentro das almas, segundos de eternidade. Ela se lembraria dos toques singelos de mãos contornando a pele dos rostos. Uma tarde. Silêncio bondoso do vento... junto dele rimavam os assobios dos pássaros, os risos, as duas vozes serenas que se alimentavam de timidez. Uma bonita e alegre timidez.
Era só um caminho, um ponto de ônibus, um beijo, um entrelaçar de braços... e pois que pincelaram, sem saber, uma poesia.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Ei... que bom que você veio.
Em que parte daqueles minutos angustiosos ouvira o choro contido?
Você viu tudo?
Eram olhares, olhares, olhares, olhares... e eu queria tanto correr, como nunca quis em toda a minha existência terrena. Correr. Puxar de uma só vez a válvula que controla os meus ares, o equilíbrio do sangue, dando a precisão dos movimentos.
Vontade de ajoelhar debaixo uma árvore de ipês amarelos. E ali ficar. Até quando Deus sentisse que eu poderia voltar... assim... mais calma, mais quieta, verdadeira. E retribuir os olhares com alguma simplicidade conquistada nesses minutos de solidão.
Nunca desejei a quentura da sua mão como hoje...
Eu perdi os sinos que me orientavam o caminho. Eu perdi o histórico de palavras a serem pronunciadas em determinados contextos. Eu perdi as cifras do violão... sempre as mesmas, tocadas durante o cochilo do Sol.
Você se lembra onde eu coloquei o álbum com a minha avó? Não estou achando... Preciso dele como um neném do seio da mãe. Quando voltar mais tarde, pode me trazer? Se de repente encontrá-lo atrás daquele montinho de livros que compramos no sebo.
Saudade.
Vamos amanhã juntos? Não se esqueça de que acordo bem cedinho... desperto às 4h30, mas só assento a sola do pé no chão de madeira às 4h46. Prometo te acariciar o rosto antes que tenha coragem para a abrir os olhos e o coração ao dia que nem se mostrou dia... dia anoitecido.
Hoje... encoste os braços nos meus, neste colchão velho. Nossos pêlos emaranhados, cruzados... em meio à desconexa felicidade de, enfim, descansar a dobradura que fiz do meu coração.

sábado, 27 de agosto de 2011

Era tão difícil para mim... sentir.
Assim que as cócegas da infância haviam partido de minha vida.
Eu não sabia receber a emoção do beijo- como sabê-la? Exercitei-me de janeiro a janeiro a pensá-la, calculá-la... racionalizá-la como um complexo objeto de estudo. Realmente ficara tão boa nisto: matematicalizar os sentimentos. Representá-los como atriz mirim num longa-metragem de pouca ação, poucas palavras soltas.
Pingos cinzas em expressões corriqueiras, conhecidas por todos que por mim passavam, e uma dor gigante no peito, revelada numa sequência desesperadora e desastrante de sorrisos. "Socorro! Eu não estou sentindo nada", acompanhava Arnaldo Antunes às 23 horas de um sábado primaveril.
No instante em que meu coração deixasse de bombear sangue, eu sentiria alguma coisa? Eu pensaria a morte? Não sei se teria mais tempo para enquadrá-la em minhas retas regras. Medo de me tornar tão concreta junto aos meus pensamentos a ponto de não existir mais lugar de acolhimento para a alma. Até que dia ela ainda sobreviveria tentando acompanhar o meu corpo, o meu cérebro?
Amanhã... devagarinho... cante para eu dormir, cante para eu chorar. Porque preciso do esvaziamento.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Minha bela desconhecida

Após as águas que acariciaram as nuvens dançantes no ar dessa sexta-feira de agosto, uma luz começou a pintar as sombras daquele rosto largo, triste, completo de linhas que demarcavam graciosamente a beleza do tempo diante da carne humana. Tinha a saia encostada nos dedos dos pés, receptiva ao possível encontro com o vento... e blusa em tom vinho. Lábios perolados, olhos redondíssimos- eram bolas de gude desenhadas em lápis grafite.
Mistério rico da imperfeição.
E como que deixasse de ser mulher, era agora para mim uma imagem espalhada no molhado papel vegetal, exposto ao Sol. E eu era como um visitante, um estrangeiro... vislumbrando. Desconcertado em meio à música interna que, num estalo, me decompunha e me recompunha de visões, segundo após segundo. Infinitas linhas que dela partiam encontravam fonte em mim.
Naquele começo de dia, ao senti-la com os olhos, notei que eu já não era mais homem, mas a criança ainda quente dentro dele.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

"Pelo tempo que durar"

Era sorriso delineado de pureza. Quando a sua face, precisamente os olhos, se inclinavam a fim de transferir calor com o reflexo dos cílios. Ela já não continha o nascer de toda a flora em si. Desceu do ônibus como quem desce do paraíso e deixa em concreto uma oração enamorada àquele que fica. A manhã estava bem retocada de brisas e folhas secas, imersa numa paisagem marrom avermelhada, humanamente aberta em completar as sutilezas das imagens que os dois, amando, compunham...enquanto a Terra espreguiçava-se no lento giro de vinte e quatro horas.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Espaço Aronoele

Uma criação... no profundo daquilo que entendo por vida.
Eu não estava... não estava ali. O som que meus lábios emitiam, juntamente com o mover-se de minha língua, não eram escutados por mim. Lembra-se do riso à toa, larguíssimo, mergulhado à minha febre doce, naquela tarde em que o Sol tanto iluminava nossas mãos sobre os livros? Eu não o ouvi... não captei a essência do que lhe transmiti.
Era um espaço. Espaço tão fino, tão rente à pele humana... assim, miúda costura de algodão transparente, de delicadeza sem igual... Lugar onde eu habitava. Onde as ondas provocadas pelo violino perdiam a divindade ao transpassarem a invisível camada petrificada de meu esconderijo. Demorei cinco anos para construí-la... minha caverna. Toda muda, detalhada com botões de uma mesma cor e de um mesmo brilho, trabalhada à mão vinte e quatro horas, todos os dias, inclusive finais de semana. Em um círculo no centro do chão uma mandala e uma flor de lótus- as únicas quietudes que eu recolhia do plano da matéria. Minha mente já não possuia poderes para a ultrapassagem... Por favor, me ajudem a sair daqui. Reestabeleçam a conexão do real com o meu ser. Toquem, abracem, apertem, dedilhem o meu corpo até que eu sinta o barulho desse espaço estourando como bolha, na mesma altura dos tambores de Angola... e na mesma harmonia.

domingo, 21 de agosto de 2011

O espírito em asas, em flor...

Pois que era pássaro e flor... era os dois. E não sabia. Que ao nascer da madrugada lhe escapavam do corpo aquelas asas azuis e se espalhavam sobre o seu colchão. Como num grito longo e profundo, vozes nas formas de grossas penas, exuberantes, cantavam à imensidão da noite o canto do vento, o canto do espírito, o canto da liberdade. E ferozmente a energia penetrava naquelas tentativas de vôo, de se alcançar a plenitude do ar. As asas batiam, batiam, batiam! Para respirar! Queria-se o dom do respiro... que preso no corpo o cheiro das tulipas não costuravam poesia em seu ser. Mas que fora do tormento, sendo só fluidos de pensamentos envolvidos na aquarela da eternidade podia-se incorporar à terra, dançar nos caules delas, ser a própria vermelhidão das pétalas... e da ponta da mais doce tulipa abrir de repente as asas numa viagem quase sem fim. Navegando no fio de aroma que desenha todos os dias o invisível da natureza terrestre.

domingo, 29 de maio de 2011

Hoje
Escreva...

Amanhã
Escreva...

... e que da ponta de sua caneta nunca pare de sair as expressões e sentimentos que há dentro de você.


Gotas azuis de palavras carinhosas vindas de um amigo.
Uma mensagem para mim, para você... para a alma que respira em nós.

Que a escrita interna em poesias ou prosas seja sempre enlaçada pela maravilha do sentimento de cada novíssimo instante.

sábado, 21 de maio de 2011

Na quietude de um quadro...

Era no cerrar dos olhos... no exato momento em que os cílios se cruzavam em harmonia, eu podia ver-me inteira. E ao abri-los, perdia completamente a noção de plenitudide, como se eu não fosse mais eu, como se eu já não me conhecesse... e quanto mais tempo eu fitava meu olhar para o externo a tudo que sou, mais sentia-me transbordar de minhas próprias mãos. Os sentidos todos eram perdidos quando eu, simplesmente, me deparava com as pessoas, com as pessoas e seus gestos, com as pessoas, seus gestos... e suas palavras. Eu corria das palavras! Acolho a essência do surdo... Muitas vezes as palavras são sinais vermelhos para a paz interna do ser, e eu queria a paz... queria fugir do mundo, queria o esquecimento, o canto quieto, as bocas sem tom de voz, os olhares sem julgamento algum, as gentilezas do andar, o sorriso que emana bem-querer, o silêncio que acalenta a esfera de energia do coração.
Abraço o escuro, o silêncio me é afetivo. E neles se dá a compreensão da imagem de minha vida... eu apenas precisaria levar comigo agora uma flor branca... suas pétalas contornadas com giz de cera lilás. Entro em um quadro. Um quadro em que eu sou artista invisível, mas minha flor não... ela dançará a minha arte, ainda incompreensível a ti, para eu veja tuas pálpebras descansarem na mesma canção silenciosa que canto toda a manhã.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Quando há leveza...

Ah, essa lenta leveza!
Brincando de ser borracha
Apaga do peito o rabisco
Suaviza a alegria do riso

Criando a criança em mim
Serei como a verde ave
Vendo a vinda do beija-flor
Que vem beijar-me enfim...

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Sentido da alma

Não veria o falar dos olhos
Não veria o mexer das bocas
Não veria a vida em volta
Voltaria a cantar à toa

Pois sozinha era a alma
Só de tanto sair de si
Morria a morte das outras
Matava luzes em si

Coragem dei àquele ser:
"Prenda-se a algo!"
Continuava a sorrir...
Presa na própria prisão

Alma amando o quê?
Que tom tem a canção?
Há sabiá sem assobio?
O dom de ser só não é vão...

terça-feira, 17 de maio de 2011

O lugar que criaste

Primavera
Lugar bom
Ressoa em mim um som
Uma oração

Fatia do céu
Pingo de rio
O azul transparece
Na flor que ninguém viu

Tua presença foi canto,
luz e impressão:
"Este mundo graça era!"
Tu me deras emoção

Hoje eu choro
Como choro de chuva
Um saudoso lugar
Deixaste numa Lua

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Um sonho na contramão

Eu sonho a vida.
E neste banco a vida vai
Sonhando em varrer
Meus sentimentos

Nesta gélida manhã
Miram os fios de sol
Cheios de solidão
Na negritude de meus olhos

E eu descanso no ar
Quase a levar-me embora
Quase a ninar-me
Como numa rede branca

Acordo, vou para casa.
Unida à ilusão
Andando na contramão
De uma rua vazia


quarta-feira, 20 de abril de 2011

Levantar-se ao som do sol...

Porque, mesmo com o passar do tempo, eu ainda me via com a necessidade de escrever... de reescrever minha alma hoje, como para aquele que a fala já pouco diz, que os olhos já pouco expressam, que o sorriso já pouco alegra a si mesmo... por isso o ato de escrever se tornará indispensável novamente em alguma curva traçada no caminho.
Caminho sem pegada alguma pela frente... são apenas os pés, de preferência descalços, que encostarão na terra a ponto de marcá-la, a ponto de se confundir com a terra... de, quem sabe, dormir uma noite inteira num desengonçado círculo feito com pressa a fim de apenas encolher-me, aquietando a ansiedade de continuar a andar... e andar.
A curva chama a atenção por ser tão diferente de todo o percurso... ela se atreve a fazer-nos freiar... atenuar nossa rapidez, preparar olhos atentos para a próxima paisagem (se caso vencermos a curva íntima...), abrir nossa camada de medo, existente em todo o ser humano e pintada de aquarela todas as manhãs para o encontro com a vida.
Desconfio que ainda estou deitada no meio da madrugada e no meio do caminho, esperando o Sol nascer... não para mim, mas em mim... e, finalmente, levantar meus olhos para vê-lo com clareza como age desnudo um girassol. Cavar um pequeno buraco na terra e por com cuidado os pensamentos que apagaram o meu dom de sentir, a maravilha de inspirar com esperança, de gargalhar energicamente como criança... de voar em espírito para outros e outros e outros mundos.