segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Ei... que bom que você veio.
Em que parte daqueles minutos angustiosos ouvira o choro contido?
Você viu tudo?
Eram olhares, olhares, olhares, olhares... e eu queria tanto correr, como nunca quis em toda a minha existência terrena. Correr. Puxar de uma só vez a válvula que controla os meus ares, o equilíbrio do sangue, dando a precisão dos movimentos.
Vontade de ajoelhar debaixo uma árvore de ipês amarelos. E ali ficar. Até quando Deus sentisse que eu poderia voltar... assim... mais calma, mais quieta, verdadeira. E retribuir os olhares com alguma simplicidade conquistada nesses minutos de solidão.
Nunca desejei a quentura da sua mão como hoje...
Eu perdi os sinos que me orientavam o caminho. Eu perdi o histórico de palavras a serem pronunciadas em determinados contextos. Eu perdi as cifras do violão... sempre as mesmas, tocadas durante o cochilo do Sol.
Você se lembra onde eu coloquei o álbum com a minha avó? Não estou achando... Preciso dele como um neném do seio da mãe. Quando voltar mais tarde, pode me trazer? Se de repente encontrá-lo atrás daquele montinho de livros que compramos no sebo.
Saudade.
Vamos amanhã juntos? Não se esqueça de que acordo bem cedinho... desperto às 4h30, mas só assento a sola do pé no chão de madeira às 4h46. Prometo te acariciar o rosto antes que tenha coragem para a abrir os olhos e o coração ao dia que nem se mostrou dia... dia anoitecido.
Hoje... encoste os braços nos meus, neste colchão velho. Nossos pêlos emaranhados, cruzados... em meio à desconexa felicidade de, enfim, descansar a dobradura que fiz do meu coração.

sábado, 27 de agosto de 2011

Era tão difícil para mim... sentir.
Assim que as cócegas da infância haviam partido de minha vida.
Eu não sabia receber a emoção do beijo- como sabê-la? Exercitei-me de janeiro a janeiro a pensá-la, calculá-la... racionalizá-la como um complexo objeto de estudo. Realmente ficara tão boa nisto: matematicalizar os sentimentos. Representá-los como atriz mirim num longa-metragem de pouca ação, poucas palavras soltas.
Pingos cinzas em expressões corriqueiras, conhecidas por todos que por mim passavam, e uma dor gigante no peito, revelada numa sequência desesperadora e desastrante de sorrisos. "Socorro! Eu não estou sentindo nada", acompanhava Arnaldo Antunes às 23 horas de um sábado primaveril.
No instante em que meu coração deixasse de bombear sangue, eu sentiria alguma coisa? Eu pensaria a morte? Não sei se teria mais tempo para enquadrá-la em minhas retas regras. Medo de me tornar tão concreta junto aos meus pensamentos a ponto de não existir mais lugar de acolhimento para a alma. Até que dia ela ainda sobreviveria tentando acompanhar o meu corpo, o meu cérebro?
Amanhã... devagarinho... cante para eu dormir, cante para eu chorar. Porque preciso do esvaziamento.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Minha bela desconhecida

Após as águas que acariciaram as nuvens dançantes no ar dessa sexta-feira de agosto, uma luz começou a pintar as sombras daquele rosto largo, triste, completo de linhas que demarcavam graciosamente a beleza do tempo diante da carne humana. Tinha a saia encostada nos dedos dos pés, receptiva ao possível encontro com o vento... e blusa em tom vinho. Lábios perolados, olhos redondíssimos- eram bolas de gude desenhadas em lápis grafite.
Mistério rico da imperfeição.
E como que deixasse de ser mulher, era agora para mim uma imagem espalhada no molhado papel vegetal, exposto ao Sol. E eu era como um visitante, um estrangeiro... vislumbrando. Desconcertado em meio à música interna que, num estalo, me decompunha e me recompunha de visões, segundo após segundo. Infinitas linhas que dela partiam encontravam fonte em mim.
Naquele começo de dia, ao senti-la com os olhos, notei que eu já não era mais homem, mas a criança ainda quente dentro dele.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

"Pelo tempo que durar"

Era sorriso delineado de pureza. Quando a sua face, precisamente os olhos, se inclinavam a fim de transferir calor com o reflexo dos cílios. Ela já não continha o nascer de toda a flora em si. Desceu do ônibus como quem desce do paraíso e deixa em concreto uma oração enamorada àquele que fica. A manhã estava bem retocada de brisas e folhas secas, imersa numa paisagem marrom avermelhada, humanamente aberta em completar as sutilezas das imagens que os dois, amando, compunham...enquanto a Terra espreguiçava-se no lento giro de vinte e quatro horas.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Espaço Aronoele

Uma criação... no profundo daquilo que entendo por vida.
Eu não estava... não estava ali. O som que meus lábios emitiam, juntamente com o mover-se de minha língua, não eram escutados por mim. Lembra-se do riso à toa, larguíssimo, mergulhado à minha febre doce, naquela tarde em que o Sol tanto iluminava nossas mãos sobre os livros? Eu não o ouvi... não captei a essência do que lhe transmiti.
Era um espaço. Espaço tão fino, tão rente à pele humana... assim, miúda costura de algodão transparente, de delicadeza sem igual... Lugar onde eu habitava. Onde as ondas provocadas pelo violino perdiam a divindade ao transpassarem a invisível camada petrificada de meu esconderijo. Demorei cinco anos para construí-la... minha caverna. Toda muda, detalhada com botões de uma mesma cor e de um mesmo brilho, trabalhada à mão vinte e quatro horas, todos os dias, inclusive finais de semana. Em um círculo no centro do chão uma mandala e uma flor de lótus- as únicas quietudes que eu recolhia do plano da matéria. Minha mente já não possuia poderes para a ultrapassagem... Por favor, me ajudem a sair daqui. Reestabeleçam a conexão do real com o meu ser. Toquem, abracem, apertem, dedilhem o meu corpo até que eu sinta o barulho desse espaço estourando como bolha, na mesma altura dos tambores de Angola... e na mesma harmonia.

domingo, 21 de agosto de 2011

O espírito em asas, em flor...

Pois que era pássaro e flor... era os dois. E não sabia. Que ao nascer da madrugada lhe escapavam do corpo aquelas asas azuis e se espalhavam sobre o seu colchão. Como num grito longo e profundo, vozes nas formas de grossas penas, exuberantes, cantavam à imensidão da noite o canto do vento, o canto do espírito, o canto da liberdade. E ferozmente a energia penetrava naquelas tentativas de vôo, de se alcançar a plenitude do ar. As asas batiam, batiam, batiam! Para respirar! Queria-se o dom do respiro... que preso no corpo o cheiro das tulipas não costuravam poesia em seu ser. Mas que fora do tormento, sendo só fluidos de pensamentos envolvidos na aquarela da eternidade podia-se incorporar à terra, dançar nos caules delas, ser a própria vermelhidão das pétalas... e da ponta da mais doce tulipa abrir de repente as asas numa viagem quase sem fim. Navegando no fio de aroma que desenha todos os dias o invisível da natureza terrestre.