sexta-feira, 30 de setembro de 2011

O andar só às vezes me satistazia tanto. Independência: fortaleza interior. Ouvir o barulho que a grama faz quando assentamos o pé lentamente durante uma caminhada com o nada. O meu envolvimento com o nada era tão exato na manhã passada. Nada... nada me pertencia. Nem meu amor me pertencia. Os meus beijos não me pertenciam. Quem dirá os meus sorrisos... Tudo, tudo era do mundo. Como a chuva que cai e, caindo, molha a todos na estação de trem. Ela não é mais do céu, não é mais de Deus. É nossa. Você nunca seria meu... e eu jamais seria sua. E isso não era bom e nem era ruim. Eram apenas notas de liberdade que saiam do meu violão, cantadas a fim de que nos atingíssemos pelo mesmo contentamento que impulsiona o ser humano a dizer "eu te amo". Frase composta por três palavras singelamente secretas, como o desenho em giz de cera de uma criança, secretas como aquela fotografia tirada entre as águas claras na beirinha fina do mar, secretas como o gosto do café tomado na mesa de madeira na varanda, enquanto a imensidão do céu era pincelada em aquarela... tonalidades que nos atentavam à paixão pelo recomeçar. Como eu amo a ação gritante deste verbo: recomeçar.
Porque, embora nada se fixasse a mim... tudo seria, sempre, a minha eterna busca.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Eu me agachei... como quem agacha para desvendar as pequenas peças de um gigante quebra-cabeça. Pecinhas tão bem delineadas, tão bem encaixadas... que bem para o mundo a montagem graciosa daquela paisagem, que se mostrava toda sábia. Silenciosamente sábia.

Roger... revelou-me o seu nome com uma ligeireza de quem conhecia, desde o primeiro contato com o ar, os mistérios de uma mão. Seu sinal representava a liberdade dos cachos castanhos, inquietos e compenetrados à alegria pulsante de pertencimento. Naquela sexta-feira, em meio à tanta falta de som, fui conectada por ele ao mesmo aconchego... o de pertencer. Porque, sem encontro marcado, eu me vi ali. Agachada. Olhando, vendo, reparando docemente nas articulações daqueles dedos ainda em formação, naquelas expressões claras e vívidas de criança que sonha, naqueles olhos, molhados de luz, que me miravam durante um segundo ou outro. Quebra-cabeça... Ele era a junção de frescos pedações de espontaneidade, que o próprio beija-flor teria dificuldade em traduzir.
Minha fotografia da noite, meu respiro bondoso...

Esperança. Acho que o que senti foi esperança.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Será que um dia nos apaixonaríamos?
Nada era certo naquele fim de dia. Nada era certeza. Nada era perfeição. Nada era ordem.
E, assustadoramente, isso me alegrou. Alegria desorientada, desorganizada.
Desde quando eu havia sentido algo assim? Talvez nas cambalhotas da infância... Depois viera para cá. Cidade grande, cidade da imensidão. Faria parte de um grosso recheio de gente, moraria em mais um dos tantos edifícios erguidos sem mais nem menos, andaria pelas calçadas e ruas movimentadas olhando o relógio acelarado do pulso. Teria pouco acesso às sementes das árvores, aos galhos nascidos delas para que pudéssemos subir, sentir a casca e ter a chance de avistar o mundo por um ângulo mais natural. Dar voltas no quarteirão de bicicleta já não me era viável- nem um pouco. Ir até a praça e encontrar sempre um monte de terra vermelha, aonde investíamos toda a nossa imaginação e nos sujávamos até que o guspe chegasse a incorporar o sabor do suor.
Às vezes conecta-se em mim uma vontade extrema de conhecer quem eu seria se não saísse de lá. Se não viesse para cá. Se visse menos concreto. Se ouvisse mais o silêncio. Que choque foi esse que se deu? Por que me trouxeram? Eu não queria vir, ninguém perguntou minha opinião sincera. E se, por acaso, eu disse "sim"... acreditem, era papo fiado de criança.
Mas estou aqui... e só me lembrei disso tudo, porque ontem me cutucou a mesma liberdade... quieta e simples. Não tive compromisso comigo, nem me invadi de regras, de planos... Alguma coisa havia se instalado em mim e eu sei que ela viera daqueles nove anos, naquela cidade, com aquelas pessoas, aquele cachorro, aquela árvore em frente ao quintal, aqueles banhos gelados de mangueira com meu irmão. Eu nunca fui tão feliz. E era sim... felicidade.

domingo, 11 de setembro de 2011

Sonhadora... Acho que nunca havia utilizado essa palavra para me descrever. Gosto dela. Sempre a compreendi como alta demais em comparação a como eu via os meus pés raspando na calçada. Meus fios de cabelo eram racionais, minhas unhas pintadas, a textura de meus lábios, o balançar dos meus cílios... até a expressão interna dos olhos era racional. Passei estações e estações me observando assim. Quando acatava a doçura de uma flor, ao lado do metrô, em meio a tanto concreto, eu me sentia minusculamente pequena, essencialmente seca e pálida, extremamente sem cor alguma. Transparência de mim. Ela, sim, era uma verdadeira sonhadora. Verdadeira- uso esse adjetivo porque que me é simples e complexo ao mesmo tempo. E uma flor tem disso. Parece tão sensível, uma delicadeza inatingível ao tato humano... mas também pulsa força e confiança. Faz com que eu me lembre de duas sintonias tão próximas a mim: você e Deus. De novo... devo estar sonhando de novo ao escrever assim e me reportar à casca do secreto que existe em alguns sentimentos. Escutar-te me nomear como sonhadora automaticamente fez com que eu pudesse enxergar a minha carne. Às vezes faço pouco caso dela. Só vivo no dentro, no interno, no espírito, no coração, no centro de energia... que me espanto com o fora, o externo, a carne, o asfalto. Tenho medo dos extremos. Muito medo. A claridade tão clara e a escuridão tão escura me amedrontam. Tento me centralizar, mas escapo por algum furo que, de tanto cutucar e cutucar, faço passagem para o meu corpo todo. Para depois ir atrás de outro "novelo de lã no ventre da mãe" e brincar e lutar com o que sonho e o que é real. Tendência em me balançar no galho da árvore da ilusão. Se eu me arranhar por esse quintal... ou você me arranhar involuntariamente- acho que nunca seria um ato voluntário seu-, eu deixaria a misteriosa ideia de ser sonhadora. Por um tempo. E continuaria orando pelo seu bem, no fim do dia, sentada no meu amontoado de cobertores. Não estou feliz... mas estou sonhando. Confesso que hoje um pouco mais próxima da dureza do chão, mas ainda a flutuar. Como quem flutua para simplesmente... não morrer.

sábado, 3 de setembro de 2011

Agora...
Era só ter um meio, um transporte suficientemente rápido... e eu iria. Iria agora para lá. E me debruçaria com tanto desejo naquele último bloco de gramado, aonde está o seu corpo... que já não é mais corpo e carne, mas a puríssima e fresca natureza. Como as suas flores continuam lindas e coradas... elas possuem a cor dos seus vestidos rodados, todos realçados de juventude. Se eu, apenas por amor, tivesse a chance de te ver mais uma vez. Ou só de longe... em um daqueles bailes para os quais se produzia com toda a feminilidade do batom, dos anéis prateados. Eu juro... como sinto paixão pela simples ideia de estar no mesmo lugar que você. Seu lar deve ser numa casinha tão aconchegante, imagino-a ajudando incansavelmente os que aí chegam à procura de respostas, à procura de paz.
Venha um dia passar as mãos sobre os fios do meu cabelo. Venha... venha, nem que dure um minuto da madrugada, e beije a minha testa. Encoste a fortaleza da palma de sua mão no centro de meu peito... encaixe-a ali por algum tempo e massageie a minha vida. Serei como que um filhote de passarinho... sem penugem, sem capacidade para a busca do alimento... acalenta-me na sua manta, embrulha-me... ensina-me a alçar vôo do galho alto deste pé de larangeira.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Poesia de uma tarde

Acionaram, dentro das almas, segundos de eternidade. Ela se lembraria dos toques singelos de mãos contornando a pele dos rostos. Uma tarde. Silêncio bondoso do vento... junto dele rimavam os assobios dos pássaros, os risos, as duas vozes serenas que se alimentavam de timidez. Uma bonita e alegre timidez.
Era só um caminho, um ponto de ônibus, um beijo, um entrelaçar de braços... e pois que pincelaram, sem saber, uma poesia.