sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Nós


Visão: de dentro para fora. Sim, o cego vê. E, ao cerrar os olhos, eu via melhor - eu nos via melhor. Nós ultrapassávamos os amantes e os amigos, perfurávamos a dor do longo oceano dividindo terras, capturávamos as máscaras do tempo florido, conquistávamos as viagens à Lua, nos sintonizávamos aos poemas de Manuel Bandeira, assobiávamos a canção dos Scorpions, balançávamos a rede da praia, cheirávamos a manga madura, provávamos o amargo do café depositado no canto da boca, dançávamos vagarosamente ao som de nossas respirações silenciosas, colhíamos imagens do imaginário, sentíamos com delicadeza o calor do beijo saudoso. Eu estava pronta para que sentisse a minha falta, estava pronta para pentear meu cabelo e alisar as veias do meu coração com a ternura de uma mulher e a graça de uma menina. Tenho a saudade bem verde. Mas preciso aprender a cuidar do meu amor por mim. Quando quiser me contar sobre uma tarde em que tenha tomado um delicioso sorvete de maracujá... estarei aqui.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Desencanto


Eu era flor amarela e tímida. Enfeitava-me de poesias entre os caules de um sofrimento agudo, para que me visses vestida do tecido mais sentimental que o mundo terreno pode oferecer. De noite, no descanso da respiração e dos batimentos cardíacos, me deitava sobre a fina areia de um espaço adocicado, onde todo o preparo emocional era condicionado ao seu bem, quando amanhecesse. Meu Sol tornou-se miúdo ao perceber que as energias luminosas saídas de mim não eram refletidas por ti... e o teu silencio começou a não sustentar os pedaços sonhados pela natureza do espírito. As palavras curtas de uma saudade sem sossego, a esperança cansada de ser cultivada de longe. Eu era mais amarela que tímida, mas ainda assim, timidamente eu desaparecia - a fim fertilizar a terra seca.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

O desconhecido



O creme e o frango se incorporavam à saliva... aquela pasta cremosa e salgada me alimentava o corpo solitário na mesa central do restaurante. Todas as outras estavam preenchidas de seres em conjunto. Eu os espiava com uma invisibilidade que me dava o direito de tal ato. Era poesia olhar os enamorados, escutar os risos das meninas solteiras, acompanhar o desleixo dos três rapazes ao lado, reparar na graciosidade da troca de confidências entre mãe e filha... Dedicava-me a uni-los todos em meu filme interior, enquanto mastigava com lentidão a coxinha e banhava a secura da garganta com goles gelados de suco de maracujá. Tinha a impressão de que poderia recolhê-los nas cadeiras vazia que me cercavam - a fim de costurar todos os diálogos, todas as evoluções, todos os tempos, todas as esperanças, todas as frases descontínuas sobre amor, todos os perfumes, todos os paladares, todas as crenças, todos os medos... para onde iam, de onde vinham. Qual a flor que mais lhes fazia bem. E em quem pensavam quando a regavam.
Porque a simplicidade de conhecer o desconhecido nunca me pareceu tão saborosa.
Desejei ardentemente o outro.

domingo, 18 de dezembro de 2011

Perda de saudade


Uma multidão. Eu estava a ponto de me dissolver, como açúcar em uma grande quantidade de água. Fechei os olhos. E tudo o que ouvia não se podia distinguir. O som de dentro nunca foi tão diferente do de fora. Aquelas vitrines e aqueles manequins e todos aqueles produtos e seus consumidores acelerados. Passava e repassava a mão pelo rosto, pelos braços, pelos olhos exaustos. Involuntariamente começaria a sacudir a perna direita e coçar a nuca. Não vinha ar. Não ia ar. Os pulmões sugavam o suficiente para que não faltasse oxigênio à corrente sanguínea, ao cérebro - e para que eu ficasse ao máximo atenta, a sentir as batidas densas do coração. Expirando a alma... Expirando... Se eu não pausasse o movimento externo, cessaria o movimento interno. Perderia a consciência de vida, perderia os sinais, os reflexos... a saudade de ti.

sábado, 17 de dezembro de 2011

Por pouco...


Uma questão apenas... você sentiria a minha falta? Em tempos de distância, comprimo-me inteira a fim de que alguma gota de sabedoria escorra pelos poros abertos. Aconselharam-me a não dar-te mais notícias. Difícil. Ao mesmo instante, muitos outros caminhos se conectam ao meu presente. Vivo em um sonho à parte - e espero. Hoje coloquei uma saia florida... flores azuladas. Senti-me bonita. Uma beleza capturada pela grossa saudade do beijo. O vento bailava por entre o pedaço de pano e minhas pernas. Eu observara tudo essa tarde... como uma criança de quatro anos ou como uma senhora de oitenta e dois. Andei de mãos dadas com todas aquelas pessoas do parque. E eles me amaram. A sua imagem já estava mais calma e lenta e doce... transparente como a água que escorrega das nuvens no fim das tardes primaveris. Sentei no banco de madeira e conversei com alguém... um estranho que me sorriu. E eu ri - quase gargalhei. Voltar para casa não estava nos meus planos... por pouco não dormi na rua, por pouco não cantei alto, por pouco não passei no cinema para assistir à última sessão, por pouco não caminhei descalça pela Paulista, por pouco não li todos os romances da livraria, por pouco não peguei uma bexiga amarela que estavam distribuindo, por pouco não pedi para que aquele rapaz me amasse por alguns segundos. Pequenas esperanças de liberdade. Aprendi a estar sozinha.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Partir.


Às vezes me invadia uma canção de fuga... fugir. Correr corajosamente para longe. Um longe onde meu coração caiba, se aconchegue numa coberta costurada por mãos antigas e sábias, com o cheiro do seio de minha mãe e a maciez do colo que um dia me despertou a divindade da alma. Hoje minha saia se mistura à terra, exposta à quentura do sol ao meio-dia, com a temperatura preparada para sugar minhas desesperanças, minhas desconfianças, minhas infelicidades, minhas mortes, meus pregos... meu desassossego. Se o grito dos meus órgãos ecoasse para fora dos lábios, eu já estaria dormindo em um hospício. Mas não... sempre aquietei a correnteza interna. Dizer adeus a tudo... e partir... à procura de uma nova espécie de flor.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Passagem


O tempo iria passar. O tempo está passando... e, conforme eu escrevo e preencho esse espaço com letras passageiras, também engulo a saliva lenta, acumulada dentro de minha boca deserta, a cada minuto. E, assim como há quentura na luz da vela, há o frio na solidão da Lua. Eu tenho medo de quem fui. Tenho medo do quanto queimara sua pele delicada. O amor é perigoso. O meu amor é perigoso- compreendo que não o queira mais. Porém há uma poesia no tempo ainda desconhecido. Mesmo que o resto da saudade me consuma a paz, eu espero te reencontrar daqui alguns anos e te acalentar na doçura de um abraço demorado, de quem agora pode lhe compartilhar um pedaço da Vida.
Deitados na grama da Realidade, dentre os lírios da Desilusão.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Tempo doído


Achei que naquela madrugada eu morreria de dor. Puríssima dor no coração. Enfraqueci-me ao escutar sua voz... fria e dura, chamando o meu nome. Rasgada por dentro eu estava, profundamente ensanguentada, pela ação dos próprios espinhos. Não imagino para onde meu espírito viajara nos minutos de dormência. Insistia para que o choro viesse e me libertasse de todo o mal que nos fizemos. Queria ter forças para te abençoar...
Deus, que o dia termine, por favor. Que venha o cheiro novo, do ar novo, da manhã nova... desencadeando em mim todas as esperanças acumuladas no tempo do amor e no tempo do sofrimento.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Uma papoula...


Eram segredos, aos poucos, revelados. Tudo com muita gentileza, com muito cuidado. Quase que não havia ar nem tempo a nos separar. Eu podia tocar seu sangue, suas pupilas... e o mais íntimo arrepio de sua paixão por mim. Em conversas, fomos bordando verdades antes esquecidas. Joguei minhas mãos ao céu e agradeci a lembrança do seu rosto na calmaria de minha boca. Tempo ao meu bem... A sua ausência me causou um caos e eu não consegui me desencantar pelo teu sorriso. Flutuo no rio da realidade... esperando a tua resposta. Leve-me para passear, de novo, no seu disco voador ou num enorme carrossel- e atravessemos a luz celestial.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Pensar...


Era difícil não pensar. Eu - que havia me familiarizado a pensar nos porquês, nos talvez, nos finais, nas totalidades, nas letras, nos paladares, nos cheiros, nas dualidades... Eu - que sempre pensei antes de sentir, antes de sorrir, de respirar. Agora... não pensar? Como se faz? Como amar sem pensar? Como não dosar tudo? Como não balancear os beijos? Eu não sei. Juro que perco toda a realidade inventada, perco todos os ângulos de visão e os de audição, todo o aparato sanguíneo e a disposição firme dos ossos. Durante os anos de vida já vividos, só interpretei, analisei, constatei. Que erro foi o meu viver de ontem. Acidamente me apaixonei por mim. E hoje procuro luzes que não existem. Há sombras de árvores pouco floridas, muros pichados com arrependimento. O que pensarei amanhã?

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Muro alto...


Eu gostava de ver os casais... tenho gostado mais do que antes. Observo-os como uma expectadora de sensíveis filmes de amor. É agradável tentar transpor meu coração ao deles, e experimentar os mesmos mistérios, o mesmo contexto, as mesmas viagens, o mesmo beijo, a mesma espera ansiosa pelo próximo abraço. Eu sei que algo falta, há um quadro branco em mim, à procura de um tanto de cor. E a união dos corpos é uma vitrine cheia de telas pintadas com as mais contrastantes tonalidades. E tudo isso me ilude. Amo a ilusão e me felicito por sonhar o desejo espiritual e físico do outro. Não passo de uma apegada ao que é de fora - os relacionamentos íntimos afloram em mim alguma capacidade oculta de amar e de deixar que tu ames. Mais difícil é permitir o amor de alguém por mim. Eu não tenho medo de amar, exatamente. Tenho medo é de abrir-me a ti, para que me inundes de carícias.

Esquecimento temporário


Era fundamental o esquecimento. Uma hora o vento que faz a pipa subir no ar haveria de ser mais forte que eu. Hoje o vento está assim... está seco, está raivoso, está infiltrando os arredores de minha casa. E eu ainda lá, te segurando. Aguentando firme qualquer que seja a tua tentativa de voo, sem me importar com as direções em que teu corpo se faz veloz. Veja, apenas uma única linha traçando a nossa ligação em meio ao infinito céu - e eu não sei se posso confiar nela por muito tempo. Se me esquecer da pipa, continuarei, com o nascimento de alguma coragem, a amá-la. Mas como é horrível pensar em te soltar. Os ares são tua casa. Não és feito para que eu te empine o dia todo. És mais valente que eu. No fim da tarde hei de te permitir a paz... pelo meu próprio bem, porque todos os meu pensamentos não te abandonam e sufocam meu corpo frágil. Que haja o esquecimento temporário... para a tua renovação em mim.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Existir...


"Que tolo fui eu que em vão tentei raciocinar nas coisas do amor que ninguém pode explicar..."
Raciocínio puro. E, depois de raciocinar, esquecer... era sempre essa a ordem das coisas. Pensar desde a primeira junção de lábios. Esquecer desde o primeiro medo de perder-se. E quando dizem que faz parte do equilíbrio da vida se desequilibrar ao amar, eu contesto fielmente. Mas não vejo outro meio. Aliás, eu nunca tive "meios"... foi sempre: começo e fim. O que é o meio? O que é continuidade? A desistência de tudo me assustava. Porque, nessas horas, eu quase que desistia de mim. Passo dias teorizando... sim, eu sei. Há pouca convivência da prática com a palavra. Alimento-me de palavras- as mastigo com todo o calor de minha boca. Pode-se agir com frases, pensamentos e silêncios. Não pode? Porque, se não... meus olhos, meu sorriso, minhas orações, meus chamados, meus cantos, meus textos, meu violão... tocam o vazio da existência. E eu desejo, amorosamente, existir.

domingo, 4 de dezembro de 2011

Passará...


Porque, vê... há agora o vazio, o desconhecimento, a brisa sem direção, a ausência, a nudez. Há pequenas e grandes verdade sobre nós. Já sentamos debaixo da mesma árvore- não mais. Já colhemos as flores, cada um a seu modo. Sinto gratidão por isso, sim. É sob a ótica da gratidão que busco observar o mundo. É... é questão de busca, de paciência para com a busca. Somos um breve pulsar. Deixe que o tempo cure... deixe que uma Força Maior proteja. Permita a ação do Invisível no silenciar das nossas respirações. O que há em nós é sobretudo cansaço- estou cansada... você também. Ergo as minhas armas, porque no próximo segundo eu me transformo. E, por me transformar, eu sei que tudo se transforma e tudo é passageiro. E eu vou passar... você também passará.

sábado, 3 de dezembro de 2011

Dia internacional das pessoas com deficiência


"A experiência humana não seria tão rica e gratificante se não existissem obstáculos a superar. O cume ensolarado de uma montanha não seria tão maravilhoso se não existissem vales sombrios a atravessar."

Helen Keller - escritora surdacega

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Angústia...


O oxigênio era quase inexistente. Eu forçava a entrada de algo que me ampliasse os pulmões e abrangesse o cérebro, mas a memória detinha o controle total da angústia- se a gente não se atenta, a angústia rabisca a vida  com a grosseria de um carvão, e depois torna-se difícil a limpeza da casca que habitamos. A secura do ar enche-nos das mais diversas alucinações... enquanto tocamos o próprio corpo para a percepção de um ínfimo de realidade. Não há prazo. O término vem quando já adormecemos... no colo de Deus.