quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Por entre os montes


Recebi o diário com uma abertura de alma nunca antes sentida. Talvez fosse como um lugar que em nós se estica com velocidade tamanha, sem estranheza alguma, frente a um milagre. Mal sabia aquele ser que, ao entregar folhas e folhas em branco a mim, estava a pintar de vermelho-amora todas as veias de minha mão direita. Advinhara-me tão Alice quanto a Alice no País das Maravilhas, deliciosamente a sonhar - sem medo - na capa do diário. Voltara-se a presença do lápis, das letras numa inclinação própria, quase humanas, a desejarem um largo beijo da linha horizontal - finita, mas eterna se vista entre o sol e o vento. De repente, tudo o que eu tinha se manifestava nos brancos lábios da esperança, e eu não era mais só, embora ainda consciente de um sofrimento que alcança a luz desdobrada de minha sombra. Desci as escadas do metrô com a lentidão das pernas que, num instante, pensei não serem minhas. Levava um ilimato mistério na mochila e no sorriso, como quem entende as lágrimas quentes e, ao invés de secá-las rapidamente, escolhe deixá-las em paz - na paz de um rosto que se romperia na aurora, por entre os montes de uma terra violeta.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Naquela noite, de choro lento e misterioso, encostei minha densa cabeça em teus seios bem vividos, em seios nos quais eu suguei o leite morno que habita até hoje as pequenas veias formadoras dos desenhos em meu rosto, dos riscos quase invisíveis em meu lábio inferior, do castanho-claro que ocupa delicadamente o centro de meus olhos castanho-escuros, dos pêlos mais grossos de minhas sobrancelhas, dos diferentes "M(s)" nas palmas das mãos, do sorriso alegre e do sorriso triste, dos finos fios de cabelo um dia a esbranquiçar - e, então, já brancos, é tempo de ir ao espelho. E eu me lembraria de ontem. Calmaria quente em ter sido-me concedida a bênção de cair no sono enquanto sentia o cheiro forte... dos teus seios. Somente teus.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Meu leitor.

Ele me revelou, com muita graça e firmeza na voz: "acho que todos deveríamos deixar um livro para nossos filhos." Uma das ideias mais bonitas com que havia me deparado durante a Vida até aqui. Sim, um livro. Um livro no qual todas as palavras e todos os pontos finais e todas as reticências e todas as vírgulas e todos os espaços silenciosos fossem amorosamente inseridos nas folhas de papel branco. Fiquei a refletir sobre o que contar para o ser de quem cuidarei. Penso que o pequeno chegaria a me conhecer melhor do que eu e concluiria, sorrindo, que tenho muito a aprender ainda. Pegaria-me pela mão e diria num tom engraçado, através de olhos docemente compenetrados aos meus: "venha cá, mãe, vou te mostrar o mundo!" E eu iria. Sem nada, descalça - eu iria. 

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Da solidão no Invisível

A sensação era a de que, a qualquer momento, eu sairia correndo, correndo, correndo... do mundo. A procurar colo. Precisava apenas de um ser que se inclinasse ao meu ouvido e dissesse (baixinho): "Vamos, encoste a cabeça aqui... deixe que eu acaricie seu cabelo nesta tarde quieta, até que venha o anoitecer." E, então, com a lentidão saída de meu caule, ficaria a apertar a pele dele, afim de que quase nos misturássemos na troca de carne, de sangue, de espírito. Porque ser só nunca me pareceu tão árduo. Não pense que gosto de ser só. Solidão é aprendizado contínuo, pede disciplina, pede mente limpa, vista clara e movimentos harmônicos. Pede estado de oração. Solidão pede muito Deus. Sei mesmo é que, por vezes, o calor externo era o sopro de vida que me faltava. Há tempos em que o silêncio de dentro assusta e sente-se fome de abrigo visível. Fica-se parado - quando o medo chora novamente, é hora de voltar a amamentá-lo no Coração Invisível.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Meu milagre.


E, de repende, como quem jamais esperaria a vinda de um milagre - eu já não pensava mais em ti, eu pensava naquele estranho, no desconhecido que tanto me fizera bem na madrugada de outono, durante o enchimento da Lua e revelação do seu brilho maior. Eu podia sentir. Sim, presentificada estava em mim: a tua ausência. Porque a tua presença se perdeu na amplidão de um espaço vazio, em processo de desconexão com minha carne, com minhas veias e meu espírito. Então eu agradecia ao mais azul e iluminado Céu, pois findou-se a tua imagem, tua tão sagrada imagem. Eu já não era tua. E tu nunca tiveras sido meu.

domingo, 8 de abril de 2012

É tempo...


Porque era um tempo novo... e tempos novos exigem novas formas. E eu tomava a minha. Não podia ser mais uma lagarta apenas, não havia espaço interno para que eu a fosse. A vinda de dias escuros, sem quaisquer fios de luz, me instigou a procura minuciosa por mim, na tarefa de produzir quem eu seria durante as próximas respirações. Uma camada de identidade se perdeu por entre as memórias confusas do que vivi sonhando - ou do que sonhei vivendo -, pois a inocência cega se fora enfim. E a inocência sábia me levaria pelas mãos agora, num percurso de espinhos e flores.

quinta-feira, 22 de março de 2012

Fica bem.


Então era isso. Era este o aprendizado: deixar ir, tanto o teu coração quanto o meu. Vivemos a criar laços e laços e mais laços. E, no momento em que um se rompe - ou dois -, permia-nos a sensação de que não somos mais capazes de amanhã fazer, nem sequer, o laço do próprio tênis. O vento do ponto de ônibus sussurrava-me compenetradamente que tu, meu amor, não voltarias mais, que teu laço fora solto com tanta pressa, com tanto cansaço, com tanta amargura... que não convinha passar o outono procurando-o, em meio às folhas caídas na calçada de casa. Coloco-me em oração conjunta... e eis que a Noite, a Flor Amarela e o Pássaro também se conectam ao misterioso instante da partida.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Dentro


Solidão. Ventania. De onde vem tanto vento? Mexe com meu ser, balança a minha saia, contorna o rosto serenamente triste. Estava tentando compreender, revelar em mim a confiança plena em estar só no Mundo Material. Os pensamentos se sacudiram e eu não consegui adormecer em paz, na noite passada. Acho que não tenho mais tempo nem espaço para o amor. Cravou-se em mim a grossa poeira da desesperança, que nem o teu sorriso, nem tuas frases enfeitadas me fazem capaz de sobreviver perante este silêncio tão longínquo, silêncio mental e corporal. Silêncio do espírito. Quietude tão pobre me ausenta da humanidade. E eu grito... como passarinho faminto. Tu escutas?

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Voaria.


Era uma dor esquisita a de ultimamente. Porque passou de "dor instantânea" para "dor constante". Não pensei que fosse demorar tanto a fazer efeito este espinho. Capturou-me frágil, quebradiça, numa solidão pouco estruturada. E torturou-me. Duas semanas percorridas e ainda são visíveis as grossas marcas nos membros de quem se abriu ao sofrimento. Há curas que tardam a chegar... longas aplicações de gestos suaves são necessários para a cicatrização. Quando parei de me sacudir, encolhi-me diante da vela acesa, inspirei como se fosse inflar e sair voando por entre as páginas de uma imaginação ainda infantil, ainda menina. Agarraria-me no mais avermelhado balão para nunca mais perder-me nos pedregulhos da vida.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Eu em mim.


Descalça. Fui fazer o café às duas e pouco da tarde de sexta-feira. Não me lembro bem, mas acho que foi neste dia em que comecei a espantar o pássaros negros, emaranhados dentre os finos fios do meu cabelo. Escolhi a xícara branca, enfeitada com flores rosas e roxas, e folhas de um verde clarinho. A água ferveu, coei o café. Estava concentrada em cada mover de dedos, concentrada na reação da água com o pó, concentrada no som do café pingando, aos poucos, no fundo da garrafa térmica. Fazia o café pra mim. Absorvi o aroma, deixei algumas lágrimas caírem, derrubei um pouco fora da xícara - brindei-a com o vento a favor do amor e tomei um gole açucarado e quente. Bebi concentradamente. Depois fui ao banheiro, me atentei aos pedaços do rosto oval no espelho... passei um batom cor vinho e me abracei.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Poesia de um dia

Lá fui. Poltrona G-19. E, de novo, a moça me pergunta: "Mas é a do cantinho, fica encostada na parede. É isso mesmo?" E eu afirmo que sim, era aquilo mesmo. Eu queria ficar no canto... e apoiar minha cabeça na parede. Não muito ereta, deslisando meu corpo a fim de sentir-me bem confortável e livre pra receber o que o filme emanasse. Tem uma certa doçura melancólica em ir sozinha ao cinema. Tente. Pelo menos uma vez na vida. Acostumar-se a estar consigo era mágico, transcendia o meu corpo uno... me fazia várias. Ser várias vidas. E, ao mesmo tempo, é como se a alma tentasse escapar e acariciar os outros espectadores: "Oi. Ainda somos desconhecidos. Bom, quer me conhecer? Um café depois da sessão?" São tantos rostos e tantos sorrisos e tantos risos e tantas formas de movimentar as mãos e de segurar a xícara e de cumprimentar e tantos gostos sobre flores. Se eu pudesse ser ousada o suficiente pra te encontrar por aí. Perguntar qual o livro que está procurando na prateleira de Literatura... Poderíamos nos encantar pelos tons de voz que saem de nossas bocas e pelo silêncio que os olhos emitem, quando simplesmente não há nada a ser revelado em palavras. Restará a beleza de um dia incomum, em que foi escrita a poesia do imprevisível.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Eu ia.

Entre árvores e flores, eu ia. Finalmente contornara a curva do arrependimento. Sentei-me no sofá da sala, parei durante alguns minutos em frente da televisão desligada. De repente, cantei. Acho que cantei... quer dizer, a voz saiu. E eu lembro que era pra Deus esse canto, era bonito e suave e eu nem me reconhecia tão plena que estava de uma melodia colorida que tomara minhas cordas vocais pela mão. Nesta noite a Lua era tão segura de si no céu, sabia da sua missão, sabia o porquê do seu brilho, daquela luz toda que encharcava a cidade. Fiquei na varanda até às 3h40... conversei tanto, chorando nas pausas da conversa, e deixando-me ser conduzia por um ar encorajador e sossegado. A brisa também tinha conhecimento da sua função. E eu estava tendo da minha - penso que aí me veio a tal esperança. Não esperava de mim, nem da vida. Ter esperança é como estar em contante oração. É tempo de plantação, não de colheita. Nesta tarde eu ainda tenho que preparar a terra... estava sequíssima! Preciso alimentá-la e tocá-la, trocando energia entre corpos. E aí sim... e aí é só pegar as sementes de margarida e guardá-las na frescura de um lugar só meu, onde eu e todas elas nos encontraremos e nos despertaremos para a novidade de amar.

sábado, 21 de janeiro de 2012

Pintar-me...


Não sabia dessa minha dificuldade em despedir. Eu me desfazia, com tanta leveza, de minhas roupas e objetos e cabelos e lugares... mas de pessoas não. Por isso vejo a graça celestial pulsar em cada beijo dado na testa, em cada abraço incorporado à alma, em cada palavra reconectada ao mais íntimo do ser. Eu não estava preparada para dar um simples "tchau" a esse novo mundo construído descontraídamente em duas semanas. Mas chegara a hora de me pintar de mulher, mulher guerreira, e seguir me encontrando, me querendo, me aceitando. Chegaria em casa. E a primeira coisa que faria seria comprar um vaso de flor, qualquer uma, que emanasse um cheiro bom. Acenderia um incenso de mel. E oraria, sorrindo imensamente a favor da vida, da chuva, das estrelas, dos origamis, das mandalas, do silêncio, da renúncia, das cores, dos ventos passageiros, dos espaços ainda em branco, das gentilezas. Eu oraria a favor do conhecimento.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Explosão interna.



Foi assim: andamos e corremos na chuva. A decisão foi rápida- sorrimos um ao outro e concordamos em nos molhar durante alguns segundos na noite escura, de um céu sem estralas, de um domingo veranil. Ao rir, ali, dentre as gotas de água, eu desconheci a mim própria. E, antes, assustada pelo que não me era comum, eu agora me espantava alegremente ao notar-me conduzida por um rio todo transparente e largo e veloz. Velocidade. Eu que sempre respirei  a calmaria de um ar quente. Hoje quero me encharcar, refletir a abundância do Infinito no interior dos órgãos, dos ossos. Capturar a camada mais profunda da Terra e, como numa explosão, atingir suas pupilas. 

domingo, 15 de janeiro de 2012

Venha comigo.


Ser adorada... Um ser que tivesse adoração por meu ser - que adorasse. Não precisa me amar ou verbalizar "eu te amo", mas me adore. Adore a saia longa e florida, revestindo minhas pernas grossas, adore o meu abrir continuo de lábios- a mostra de dentes, adore o meu desejo pelas xícaras coloridas de café após o almoço, adore o tom grave da voz em transição, adore as gargalhadas desconexas que solto em qualquer contexto, adore o meu impulso em preparar um brigadeiro às duas da manhã, adore a minha gigante alegria pelas idas ao templo nos fins de semana, adore as flores que escolho na feira aos domingos, às vezes violetas, às vezes cravos, às vezes orquídeas, às vezes liz... Às vezes uma rosa, somente uma, branca ou vermelha.Queria ter um jardim no apartamento e uma biblioteca, expressando o meu amor pelo Universo, pelo que é celestial, pelo que é divino. Uma sala de meditação também, em que eu pudesse espalhar meus incensos, minhas essências. Adoremos a vida. Venha comigo.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Liberdade


Aprendia que, realmente, era questão de conquista. Conquistar a Liberdade. Você estava pronto para me soltar e eu tive que me apressar toda a fim de permitir o crescimento das asas. Sim, agora sim. Pode abrir as mãos, eu não terei raiva delas. O que sinto é uma tristeza cutucando o horizonte da alma. Mas vai passar. Eu sou feita de sentimentos criados, inventados - não precisamos dizer um "adeus" real. Deixa essa palavra densa se esconder em si mesma. E fiquemos nós dois nesse silêncio que hoje me remexeu e me inquietou. Porque sendo tão pequena perto de seus músculos, sentia-me tão protegida e amparada. Mas o meu Dharma sempre foi voar, por mais desorientada que eu esteja hoje. Preciso sair, mesmo que de fininho, preciso alçar voo e me debater em um ar desconhecido... deixando-te em paz. Assobie e eu voltarei. A minha Liberdade agora pertence ao Tempo e só ele pode me oferecer uma vida nova em meio à chuva da tarde.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Açaí


Queríamos comer um açaí. Mesmo chovendo, o importante era comer o açaí da avenida ao lado de casa. Fomos debaixo da mesma sombrinha- rosa não era a sua cor predileta, mas ele encarou andar ao meu lado assim mesmo. Muito maior que eu, ele se encarregou de segurá-la, enquanto eu, encolhida, abraçava o braço esquerdo dele, com a delícia de ser molhada, de vez em quando, pela garoa de uma quinta-feira de verão. Não me importava se ele pronunciasse ou não algumas palavras mais úmidas, algumas mais secas... o essencial era que estava comigo e eu estava com ele. E a gente ia comer açaí, talvez com fatias de banana por cima. Foi espontâneo repartir a mesma tigela entre nossas colheres gulosas. Foi natural voltar em silêncio pela rua e concordar com cada passo direcionado a um rumo de incerteza escura. Mas ele estava comigo. E eu nunca fui tão feliz dividir um açaí.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012


Sim, era um treinamento, um exercício - adaptar-se a estar só. Tenho treinado há muitas semanas andar somente em minha companhia. Há dias de facilidade, como se estivesse de mãos dadas com um velho amigo. No entanto, há dias em que tento me virar como posso para não sofrer com o estado de solidão. As salas do cinema, preenchidas de casais de diversas idades, não me eram tão confortáveis às vezes, mas eu tinha um certo prazer em olhá-los se abraçando no meio das cenas. Eu sempre escolhia o mesmo lugar: quinta fileira, última poltrona, no canto esquerdo. Acho que o moço que vendias os ingressos já estava se acostumando comigo, todas as sextas-feiras... nós sorríamos um ao outro. Saía da sala borbulhando reflexões, quando gostava do filme. Quando não gostava, também saía pensativa e agitada, ao desejar alguém a meu lado para procurar entender por que o protagonista não entregara a flor à amada no encontro final.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Pressa de amar


Só não deixe que voe despercebido... o nosso tempo. Difícil outro tempo azul, suave e afável escolher pousar na ponta de nossos dedos. Também não o machuque, não tente amassá-lo e encolhê-lo na palma da mão. Mas cuide dessa ligação entre nossos corpos, nossas almas, nossas mentes e o tempo. Por mais que eu queria manter-me firme nesse espaço silencioso que permeia o nosso inconsciente, há a fragilidade da perda de nós durante um segundo e outro. Não posso comprometer a mim mesma dessa forma. Quero-te. Quer-me também? Hoje, tem que ser hoje ainda. No amanhã, o tempo virá com outra cor e outra textura. E eu estou, sim, com pressa de amar.