sábado, 21 de janeiro de 2012

Pintar-me...


Não sabia dessa minha dificuldade em despedir. Eu me desfazia, com tanta leveza, de minhas roupas e objetos e cabelos e lugares... mas de pessoas não. Por isso vejo a graça celestial pulsar em cada beijo dado na testa, em cada abraço incorporado à alma, em cada palavra reconectada ao mais íntimo do ser. Eu não estava preparada para dar um simples "tchau" a esse novo mundo construído descontraídamente em duas semanas. Mas chegara a hora de me pintar de mulher, mulher guerreira, e seguir me encontrando, me querendo, me aceitando. Chegaria em casa. E a primeira coisa que faria seria comprar um vaso de flor, qualquer uma, que emanasse um cheiro bom. Acenderia um incenso de mel. E oraria, sorrindo imensamente a favor da vida, da chuva, das estrelas, dos origamis, das mandalas, do silêncio, da renúncia, das cores, dos ventos passageiros, dos espaços ainda em branco, das gentilezas. Eu oraria a favor do conhecimento.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Explosão interna.



Foi assim: andamos e corremos na chuva. A decisão foi rápida- sorrimos um ao outro e concordamos em nos molhar durante alguns segundos na noite escura, de um céu sem estralas, de um domingo veranil. Ao rir, ali, dentre as gotas de água, eu desconheci a mim própria. E, antes, assustada pelo que não me era comum, eu agora me espantava alegremente ao notar-me conduzida por um rio todo transparente e largo e veloz. Velocidade. Eu que sempre respirei  a calmaria de um ar quente. Hoje quero me encharcar, refletir a abundância do Infinito no interior dos órgãos, dos ossos. Capturar a camada mais profunda da Terra e, como numa explosão, atingir suas pupilas. 

domingo, 15 de janeiro de 2012

Venha comigo.


Ser adorada... Um ser que tivesse adoração por meu ser - que adorasse. Não precisa me amar ou verbalizar "eu te amo", mas me adore. Adore a saia longa e florida, revestindo minhas pernas grossas, adore o meu abrir continuo de lábios- a mostra de dentes, adore o meu desejo pelas xícaras coloridas de café após o almoço, adore o tom grave da voz em transição, adore as gargalhadas desconexas que solto em qualquer contexto, adore o meu impulso em preparar um brigadeiro às duas da manhã, adore a minha gigante alegria pelas idas ao templo nos fins de semana, adore as flores que escolho na feira aos domingos, às vezes violetas, às vezes cravos, às vezes orquídeas, às vezes liz... Às vezes uma rosa, somente uma, branca ou vermelha.Queria ter um jardim no apartamento e uma biblioteca, expressando o meu amor pelo Universo, pelo que é celestial, pelo que é divino. Uma sala de meditação também, em que eu pudesse espalhar meus incensos, minhas essências. Adoremos a vida. Venha comigo.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Liberdade


Aprendia que, realmente, era questão de conquista. Conquistar a Liberdade. Você estava pronto para me soltar e eu tive que me apressar toda a fim de permitir o crescimento das asas. Sim, agora sim. Pode abrir as mãos, eu não terei raiva delas. O que sinto é uma tristeza cutucando o horizonte da alma. Mas vai passar. Eu sou feita de sentimentos criados, inventados - não precisamos dizer um "adeus" real. Deixa essa palavra densa se esconder em si mesma. E fiquemos nós dois nesse silêncio que hoje me remexeu e me inquietou. Porque sendo tão pequena perto de seus músculos, sentia-me tão protegida e amparada. Mas o meu Dharma sempre foi voar, por mais desorientada que eu esteja hoje. Preciso sair, mesmo que de fininho, preciso alçar voo e me debater em um ar desconhecido... deixando-te em paz. Assobie e eu voltarei. A minha Liberdade agora pertence ao Tempo e só ele pode me oferecer uma vida nova em meio à chuva da tarde.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Açaí


Queríamos comer um açaí. Mesmo chovendo, o importante era comer o açaí da avenida ao lado de casa. Fomos debaixo da mesma sombrinha- rosa não era a sua cor predileta, mas ele encarou andar ao meu lado assim mesmo. Muito maior que eu, ele se encarregou de segurá-la, enquanto eu, encolhida, abraçava o braço esquerdo dele, com a delícia de ser molhada, de vez em quando, pela garoa de uma quinta-feira de verão. Não me importava se ele pronunciasse ou não algumas palavras mais úmidas, algumas mais secas... o essencial era que estava comigo e eu estava com ele. E a gente ia comer açaí, talvez com fatias de banana por cima. Foi espontâneo repartir a mesma tigela entre nossas colheres gulosas. Foi natural voltar em silêncio pela rua e concordar com cada passo direcionado a um rumo de incerteza escura. Mas ele estava comigo. E eu nunca fui tão feliz dividir um açaí.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012


Sim, era um treinamento, um exercício - adaptar-se a estar só. Tenho treinado há muitas semanas andar somente em minha companhia. Há dias de facilidade, como se estivesse de mãos dadas com um velho amigo. No entanto, há dias em que tento me virar como posso para não sofrer com o estado de solidão. As salas do cinema, preenchidas de casais de diversas idades, não me eram tão confortáveis às vezes, mas eu tinha um certo prazer em olhá-los se abraçando no meio das cenas. Eu sempre escolhia o mesmo lugar: quinta fileira, última poltrona, no canto esquerdo. Acho que o moço que vendias os ingressos já estava se acostumando comigo, todas as sextas-feiras... nós sorríamos um ao outro. Saía da sala borbulhando reflexões, quando gostava do filme. Quando não gostava, também saía pensativa e agitada, ao desejar alguém a meu lado para procurar entender por que o protagonista não entregara a flor à amada no encontro final.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Pressa de amar


Só não deixe que voe despercebido... o nosso tempo. Difícil outro tempo azul, suave e afável escolher pousar na ponta de nossos dedos. Também não o machuque, não tente amassá-lo e encolhê-lo na palma da mão. Mas cuide dessa ligação entre nossos corpos, nossas almas, nossas mentes e o tempo. Por mais que eu queria manter-me firme nesse espaço silencioso que permeia o nosso inconsciente, há a fragilidade da perda de nós durante um segundo e outro. Não posso comprometer a mim mesma dessa forma. Quero-te. Quer-me também? Hoje, tem que ser hoje ainda. No amanhã, o tempo virá com outra cor e outra textura. E eu estou, sim, com pressa de amar.