terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Dentro


Solidão. Ventania. De onde vem tanto vento? Mexe com meu ser, balança a minha saia, contorna o rosto serenamente triste. Estava tentando compreender, revelar em mim a confiança plena em estar só no Mundo Material. Os pensamentos se sacudiram e eu não consegui adormecer em paz, na noite passada. Acho que não tenho mais tempo nem espaço para o amor. Cravou-se em mim a grossa poeira da desesperança, que nem o teu sorriso, nem tuas frases enfeitadas me fazem capaz de sobreviver perante este silêncio tão longínquo, silêncio mental e corporal. Silêncio do espírito. Quietude tão pobre me ausenta da humanidade. E eu grito... como passarinho faminto. Tu escutas?

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Voaria.


Era uma dor esquisita a de ultimamente. Porque passou de "dor instantânea" para "dor constante". Não pensei que fosse demorar tanto a fazer efeito este espinho. Capturou-me frágil, quebradiça, numa solidão pouco estruturada. E torturou-me. Duas semanas percorridas e ainda são visíveis as grossas marcas nos membros de quem se abriu ao sofrimento. Há curas que tardam a chegar... longas aplicações de gestos suaves são necessários para a cicatrização. Quando parei de me sacudir, encolhi-me diante da vela acesa, inspirei como se fosse inflar e sair voando por entre as páginas de uma imaginação ainda infantil, ainda menina. Agarraria-me no mais avermelhado balão para nunca mais perder-me nos pedregulhos da vida.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Eu em mim.


Descalça. Fui fazer o café às duas e pouco da tarde de sexta-feira. Não me lembro bem, mas acho que foi neste dia em que comecei a espantar o pássaros negros, emaranhados dentre os finos fios do meu cabelo. Escolhi a xícara branca, enfeitada com flores rosas e roxas, e folhas de um verde clarinho. A água ferveu, coei o café. Estava concentrada em cada mover de dedos, concentrada na reação da água com o pó, concentrada no som do café pingando, aos poucos, no fundo da garrafa térmica. Fazia o café pra mim. Absorvi o aroma, deixei algumas lágrimas caírem, derrubei um pouco fora da xícara - brindei-a com o vento a favor do amor e tomei um gole açucarado e quente. Bebi concentradamente. Depois fui ao banheiro, me atentei aos pedaços do rosto oval no espelho... passei um batom cor vinho e me abracei.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Poesia de um dia

Lá fui. Poltrona G-19. E, de novo, a moça me pergunta: "Mas é a do cantinho, fica encostada na parede. É isso mesmo?" E eu afirmo que sim, era aquilo mesmo. Eu queria ficar no canto... e apoiar minha cabeça na parede. Não muito ereta, deslisando meu corpo a fim de sentir-me bem confortável e livre pra receber o que o filme emanasse. Tem uma certa doçura melancólica em ir sozinha ao cinema. Tente. Pelo menos uma vez na vida. Acostumar-se a estar consigo era mágico, transcendia o meu corpo uno... me fazia várias. Ser várias vidas. E, ao mesmo tempo, é como se a alma tentasse escapar e acariciar os outros espectadores: "Oi. Ainda somos desconhecidos. Bom, quer me conhecer? Um café depois da sessão?" São tantos rostos e tantos sorrisos e tantos risos e tantas formas de movimentar as mãos e de segurar a xícara e de cumprimentar e tantos gostos sobre flores. Se eu pudesse ser ousada o suficiente pra te encontrar por aí. Perguntar qual o livro que está procurando na prateleira de Literatura... Poderíamos nos encantar pelos tons de voz que saem de nossas bocas e pelo silêncio que os olhos emitem, quando simplesmente não há nada a ser revelado em palavras. Restará a beleza de um dia incomum, em que foi escrita a poesia do imprevisível.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Eu ia.

Entre árvores e flores, eu ia. Finalmente contornara a curva do arrependimento. Sentei-me no sofá da sala, parei durante alguns minutos em frente da televisão desligada. De repente, cantei. Acho que cantei... quer dizer, a voz saiu. E eu lembro que era pra Deus esse canto, era bonito e suave e eu nem me reconhecia tão plena que estava de uma melodia colorida que tomara minhas cordas vocais pela mão. Nesta noite a Lua era tão segura de si no céu, sabia da sua missão, sabia o porquê do seu brilho, daquela luz toda que encharcava a cidade. Fiquei na varanda até às 3h40... conversei tanto, chorando nas pausas da conversa, e deixando-me ser conduzia por um ar encorajador e sossegado. A brisa também tinha conhecimento da sua função. E eu estava tendo da minha - penso que aí me veio a tal esperança. Não esperava de mim, nem da vida. Ter esperança é como estar em contante oração. É tempo de plantação, não de colheita. Nesta tarde eu ainda tenho que preparar a terra... estava sequíssima! Preciso alimentá-la e tocá-la, trocando energia entre corpos. E aí sim... e aí é só pegar as sementes de margarida e guardá-las na frescura de um lugar só meu, onde eu e todas elas nos encontraremos e nos despertaremos para a novidade de amar.