quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Por entre os montes


Recebi o diário com uma abertura de alma nunca antes sentida. Talvez fosse como um lugar que em nós se estica com velocidade tamanha, sem estranheza alguma, frente a um milagre. Mal sabia aquele ser que, ao entregar folhas e folhas em branco a mim, estava a pintar de vermelho-amora todas as veias de minha mão direita. Advinhara-me tão Alice quanto a Alice no País das Maravilhas, deliciosamente a sonhar - sem medo - na capa do diário. Voltara-se a presença do lápis, das letras numa inclinação própria, quase humanas, a desejarem um largo beijo da linha horizontal - finita, mas eterna se vista entre o sol e o vento. De repente, tudo o que eu tinha se manifestava nos brancos lábios da esperança, e eu não era mais só, embora ainda consciente de um sofrimento que alcança a luz desdobrada de minha sombra. Desci as escadas do metrô com a lentidão das pernas que, num instante, pensei não serem minhas. Levava um ilimato mistério na mochila e no sorriso, como quem entende as lágrimas quentes e, ao invés de secá-las rapidamente, escolhe deixá-las em paz - na paz de um rosto que se romperia na aurora, por entre os montes de uma terra violeta.