terça-feira, 29 de outubro de 2013

O que é saudade?
Não sei se eu saberia responder-te o que ela é.
Quem sabe de outra maneira - falo sobre momento, sobre a duração de um gesto. Falo sobre algo em nós que se conscientiza da existência de uma saudade serena que permeará o futuro desde o segundo próximo, por isso há nos olhos o cuidadoso afastamento de uma câmera que reduz lentamente o ritmo dos traços que desenham os rostos e o bailarino que habita os corpos.
Amanhecia o sábado. Amanheci eu. Fui até a cozinha, lá estava ele - estava alegre, pude sentir. Dei-lhe um beijo nas bochechas vermelhas cheias de curtos fios de barba e nos abraçamos. Ele já caprichava o almoço, eu tomava o café. Quando do rádio saíram Vinícius de Moraes e Toquinho - "Venha se perder, venha se perder nesse turbilhão! Não se esqueça de fazer tudo o que pedir esse seu coração..." Começamos a cantar, os dois, cada qual na vibração das suas cordas. Não nos olhávamos, mas nos sabíamos em completo sorriso interno. Lembramos da vida em Bauru, sei que lembramos. Lembramos do quintal molhado pela mangueira laranja. Lembramos do sol quente evaporando essa mesma água e deixando um cheiro no ar. Lembramos dos banhos meu e do meu irmão com a água gelada que dessa mangueira saía. Lembramos das pessoas que passavam na rua e paravam na frente de casa para pedir um gole, com a mão em forma de concha. Lembramos da música alta a dar corda às nossas faxinas, a casa toda aberta, portas e janelas escancaradas, pedindo bênção para a vida. Lembramos dos pelos do cachorro grudando no chão. Lembramos do macarrão com molho vermelho e frango na casa da vó, para onde sempre íamos depois. Lembramos. E tivemos puro amor pela memória. E nos olhamos. Eu disse - "Pai, dança comigo?" Ele segurou minha cintura, mão grande e doce. Segurou minha mão direita, mão grande e firme. Mãos de quem me acolheu mulher. Mãos que me sambaram. Sorria, dando bronca - "Deixa que eu levo." E eu... eu deixei. Levou-me para longe, para as roupas no varal, aquarelando qualquer dor que me havia. Cerrei os olhos. Nós fomos, em pequenos e suaves passos, para a calçada de paralelepípedos, para o sem-tempo.
Foi nos seus braços, pai, que entrei pela primeira vez na Dança.

Ex-corde.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Talvez fosse melhor sair de fininho, uma outra vez - uma segunda, uma terceira, uma quarta vez.
Sair de fininho sem que me notassem as pegadas em seus jardins. Apenas passar e ir. Ser apenas uma presença. Às vezes me falta a paciência de saber-me pequena passageira na vida dos outros. Vou lá, escuto suas músicas, levo uma nova. Mas nunca há tempo para uma composição. Alguns dias somente e a hora da partida me chega, sem que tivéssemos ficado uma madrugada inteira falando e rindo sobre absolutamente nada e tudo, enquanto raspamos o brigadeiro da panela. Sem que eu te beijasse os olhos e te dissesse, da maneira mais leve, meu sonho. Há uma teoria que diz que alguns de nós podemos ser chamados de pessoas substitutas. Levanto a mão e afirmo que estou dentro dessa categoria. Nunca fui permanente na vida de alguém. Somos?
Quer mesmo saber meu sonho? Agora me sinto pronta para respondê-lo. Eu tenho um. Ou fosse melhor dizer - um sonho me tem. Um sonho tremendamente azul: quero aprender a amar. É isso. É a plenitude disso. É o que me faz ficar bons minutos na feira, conversando com o florista sobre como cuidar das margaridas que levo neste domingo. É o que me faz sorrir para desconhecidos nos ônibus, nos trens, nas calçadas. É o que me move a ver poesia numa pedra e embaixo dela. Ensinam-me essas gentilezas e eu as costuro nas pontas dos dedos e nas pupilas. Coisas tão miúdas para um sonho tão grande.
Quero a liberdade de ver-me em todos os seres e de ver todos os seres em mim. Nós - interligados pelo Sagrado.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Queria dizer-te tanto.
Ou melhor, queria silenciar a ponto de dizer-te o bem. 
Como a menina dentro do vestido azul florido - flores vermelhas - braços erguidos frente à maré que vem rindo ao seu encontro às seis da tarde de hoje. A menina que, de manhã, saiu de casa para recolher morangos e luz. A luz nos morangos. Estavam deliciosos, e pronto. Esta era sua verdade. Os morangos molhados nos lábios eram como a lembrança sem imagem que tinha dos mesmos lábios molhados pelo leite do seio da mãe. Mastigá-los demoradamente era a prova mais doce e real de que estava viva, de que o morango participava dessa mesma vida e de que agora, mais do que antes, o morango era ela, ali, comungando a beleza da transformação com as ondas do mar. 
Queria dizer-te que, pelo menos uma vez na vida, dance com um desconhecido.
Que corte o cabelo sozinho.
Que deixe o corpo adormecer uma tarde inteira na grama úmida.
Que durma ao lado do pai na rede.
Que mexa no cabelo da vó como quem sabe que vai sentir muita saudade daquele cheiro.
Que deixe as pernas correrem num domingo por ruas, sem rumo algum.
Que aprenda a tocar um instrumento.
Que suba no pé de jabuticaba e coloque as maiores numa bacia azul.
Que não se esconda das gotas de chuva.
Que levante a cabeça para encontrar a Lua, dar-lhe um bom sorriso e contar as estrelas.
Que se suje inteirinho na terra molhada, como criança faz.
Que, antes de dormir, ponha a mão direita no peito e sinta cada batimento até a chegada do sono.
Que veja um filme deitado no colo de alguém amado.
Que passe algum tempo conversando com um morador de rua.
Que mande algumas cartas.
Que peça um conselho sincero a um velhinho risonho.
Que vá ao cinema consigo mesmo.
Que reconheça um amigo.
Que plante a semente de uma única flor e seja paciente com ela.
Que chore de tanto rir.
Que se atente aos milagres que acontecem em um dia simples.

Lembre-se: O Pico da Montanha é onde estão seus pés.