terça-feira, 26 de novembro de 2013

O sorriso

Ela sempre me dizia, com uma certa mansidão na voz e um tempo de pausa entre as sílabas, que eu era o único a reconhecer os sentimentos verdadeiros em seu rosto. E todas as vezes eu achava engraçado e, em seguida, perguntava - por quê? - já sabendo a antiga resposta - porque ninguém nunca pousou os olhos tão profundamente em meu sorriso a ponto de se aproximar da essência dele. Achava belo ela usar essas palavras - normalmente quando estava dolorida em algum canto do espírito, normalmente quando se esquecia de recolher as esperanças nas manhãs, ao deixar a cama. Com sinceridade, digo a mim mesmo que comecei a aprender a ler sorrisos depois que a conheci. Ler e colecionar e depois soltá-los no rio. Ir além dos lábios, dos dentes, das conexões rápidas entre as expressões que formam e desformam um sorriso. Gostava de falar que ela tinha sorrisos de passarinho - e que, se quisesse realmente adentrá-los, eu devia ter um coração de passarinho, pois só um coração de passarinho sabe esperar. Ser paciente com o descobrimento dos outros através dos sorrisos tão vestidos. Os dela eram sempre expansivos, numa abertura que se propunha a tocar as cerejeiras na época de Hanami. Lembrávamos juntos, quando as solidões espinhavam, uma poesia do escritor português Eugênio de Andrade:

Creio que foi o sorriso,
o sorriso foi quem abriu a porta.
Era um sorriso com muita luz
lá dentro, apetecia
entrar nele, tirar a roupa, ficar
nu dentro daquele sorriso.
Correr, navegar, morrer naquele sorriso.

E, em um desses momentos, ela silenciosamente voltou seu corpo ao meu e me abraçou com a calmaria oferecida por Deus em nós. Foi, assim, que vi pela primeira vez a existência plena de um sorriso - sem forma, sem nome, sem cor, sem cheiro, sem eu nem ela. Éramos apenas um sorriso amando.


domingo, 17 de novembro de 2013

Às vezes, era isto apenas: deixar de pegar o trem para ficar mais tempo olhando a praça permeada pelo lenço quente da noite. As estrelas não vieram brincar de pontilhar em mão de criança. O vendedor de milho já estava em sua casa, deitado ao lado do filho pequeno na espera de que adormeça em paz. Os namorados guardaram mais beijos para o próximo sábado. O rapaz de barba e camiseta dos Beatles tocara apenas alguns acordes tristes e fora ninar o violão. Os pássaros cerraram as pequenas bolas de gude pretas que carregam na face e abafaram nas penas encolhidas o assobio que sobrou. Eram as flores as únicas que, talvez, escutassem os nós que se espremiam docemente em minha garganta - nasciam em fluxo as gomas densas e mornas de água, conforme o encontro dos meus cílios. Debruçada sobre o muro do metrô, cada gota foi marcando no concreto meu espanto em perceber que a praça estava mais em mim que fora. Que toda pessoa passageira de lá era passageira de cá. E eu não tinha controle algum sobre a passagem delas. Que, por mais que eu amasse os milhos, o vendedor precisava voltar para casa. Que, por mais que o som e o sorriso daquele rapaz me encantassem, ele não pertencia a praça alguma e tomava seu próprio rumo. Que, por mais que desejasse as estrelas, elas viviam sob as circunstâncias celestiais. No fim, na noite, a praça sereniza e só resta a presença das flores e das cigarras e dos cheiros suaves daquelas liberdades que me faziam exercitar a despedida e aumentar a grama da amorosa saudade.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Ele me dizia assim. Lembro-me bem. Que era durante a noite quando o encontro acontecia. Que encontro? Consigo mesma, menina-flor - sorria um sorriso sereno, numa longa observação dos meus sapatos vermelhos. Como é isso? Você se senta com perna-de-índio em frente à uma janela, às três da manhã, com um copo de leite ou chá de erva cidreira, assopra o líquido com paciência. Abre uma fresta para a brisa vir compartilhar-se, a cortina segura um pouco o ar que entra e o restante dele você recebe nos olhos e nas bochechas. Encolhe os ombros, em ternura para com o próprio corpo. Aceita com singelo cuidado o milagre - está respirando. Está viva. Repito, que é para não achar que é uma afirmação comum - está viva. Segura com mais firmeza a xícara e sente suas mãos tornarem-se quentes conforme a passagem dos milésimos de segundos. Termina o último gole, e percebe como ele já é você a partir de agora. Está só, plenamente só. Mãos vazias. Põe o rosto para fora e suga tanto o cheiro da Lua como o da flor da meia-noite plantada no jardim da casa vizinha. O silêncio é você, lendo para mim a poesia não que foi, não que será, mas a poesia que é, agora e aqui. Junta a mão direita com a mão esquerda, se inclina em reverência, e... ora com o canto do primeiro pássaro - "bom dia."