domingo, 17 de novembro de 2013

Às vezes, era isto apenas: deixar de pegar o trem para ficar mais tempo olhando a praça permeada pelo lenço quente da noite. As estrelas não vieram brincar de pontilhar em mão de criança. O vendedor de milho já estava em sua casa, deitado ao lado do filho pequeno na espera de que adormeça em paz. Os namorados guardaram mais beijos para o próximo sábado. O rapaz de barba e camiseta dos Beatles tocara apenas alguns acordes tristes e fora ninar o violão. Os pássaros cerraram as pequenas bolas de gude pretas que carregam na face e abafaram nas penas encolhidas o assobio que sobrou. Eram as flores as únicas que, talvez, escutassem os nós que se espremiam docemente em minha garganta - nasciam em fluxo as gomas densas e mornas de água, conforme o encontro dos meus cílios. Debruçada sobre o muro do metrô, cada gota foi marcando no concreto meu espanto em perceber que a praça estava mais em mim que fora. Que toda pessoa passageira de lá era passageira de cá. E eu não tinha controle algum sobre a passagem delas. Que, por mais que eu amasse os milhos, o vendedor precisava voltar para casa. Que, por mais que o som e o sorriso daquele rapaz me encantassem, ele não pertencia a praça alguma e tomava seu próprio rumo. Que, por mais que desejasse as estrelas, elas viviam sob as circunstâncias celestiais. No fim, na noite, a praça sereniza e só resta a presença das flores e das cigarras e dos cheiros suaves daquelas liberdades que me faziam exercitar a despedida e aumentar a grama da amorosa saudade.

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