sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Ele me dizia assim. Lembro-me bem. Que era durante a noite quando o encontro acontecia. Que encontro? Consigo mesma, menina-flor - sorria um sorriso sereno, numa longa observação dos meus sapatos vermelhos. Como é isso? Você se senta com perna-de-índio em frente à uma janela, às três da manhã, com um copo de leite ou chá de erva cidreira, assopra o líquido com paciência. Abre uma fresta para a brisa vir compartilhar-se, a cortina segura um pouco o ar que entra e o restante dele você recebe nos olhos e nas bochechas. Encolhe os ombros, em ternura para com o próprio corpo. Aceita com singelo cuidado o milagre - está respirando. Está viva. Repito, que é para não achar que é uma afirmação comum - está viva. Segura com mais firmeza a xícara e sente suas mãos tornarem-se quentes conforme a passagem dos milésimos de segundos. Termina o último gole, e percebe como ele já é você a partir de agora. Está só, plenamente só. Mãos vazias. Põe o rosto para fora e suga tanto o cheiro da Lua como o da flor da meia-noite plantada no jardim da casa vizinha. O silêncio é você, lendo para mim a poesia não que foi, não que será, mas a poesia que é, agora e aqui. Junta a mão direita com a mão esquerda, se inclina em reverência, e... ora com o canto do primeiro pássaro - "bom dia."

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